sexta-feira, 15 de julho de 2011

Criança cansa

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É admirável a forma como funciona a natureza. Ela impôe ritmos e algumas certezas à vida, principalmente em se tratando de aprendizado, crescimento, evolução. A gente vê isso no bebê. É a coisa mais fofa, toda mãe sabe o quanto é prazeroso estar com um bebêzinho e o quanto recompensa com seus primeiros gestos. Cada conquista é curtida com alegria. Mas a verdade é que todos desejam que a criança se desenvolva.

Por que criança cansa!

É um ser muito dependente da mãe. E por melhores que sejam as experiências e o ganho de tê-la, cuidá-la e ensiná-la, suga as energias de quem dela cuida, exige dedicação extrema. Não por acaso, com o passar do tempo, a criança começa a ter curiosidade pelo mundo que a cerca, esquece um pouco o peito da mãe. É compelida por instinto a buscar formas de se locomover, aprender a andar e ganhar autonomia. Pais e filhos desejam essa evolução. Ao mesmo tempo em que temem perder-se, soltar as mãos, algo inconsciente empurra todos os envolvidos para a libertação.

Nós também precisamos permitir que evoluam aqueles que convivem conosco. Quando alguém cria uma relação de extrema dependência para conosco, garantimos assim total controle. Contudo, submetemo-nos a um fardo, que cedo ou tarde não suportaremos carregar. Pode parecer, no começo, prazerosa a sensação de que somos responsáveis por alguém, necessários e por consequência amados. Mas o tempo sempre nos prova que o esforço é maior que a recompensa. É preciso soltar, liberar e estimular quem supostamente amamos, para que faça suas escolhas por conta própria, quebre a cabeça e aprenda nos seus tempos, para que esteja conosco inteiramente e não apenas por necessidade, medo ou comodidade.

O contrário também é verdadeiro: seria ótimo viver para sempre como criança, recebendo cuidado, atenção e aplausos dos adultos, divertindo-se, fantasiando e deixando toda a responsabilidade da existência sobre os ombros de outro. Só que ninguém aguenta viver assim: a vida clama por evolução. É preciso realizar, desenvolver os potenciais, aprender, descobrir, crescer e passar adiante. Quem nega o chamado da Vida, submete-se a uma subsistência em que outros serão sempre os culpados pelo que não realizou, pelo vazio ou pelo tédio dos dias.

Assumamos as rédeas, tomemos os remos, sejamos gratos pela oportunidade de explorar o mundo do qual somos parte e que trazemos conosco. Libertemos os outros, deixemos que vivam suas experiências, estejamos dispostos a ajudar quando solicitados. Caminhemos juntos, ajudando e recebendo ajuda, trocando experiências, mas nunca sendo arrastados ou carregados como anexos, sem desejos, sem coragem. Nunca algemando para que sigam conosco.



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