domingo, 4 de dezembro de 2011

Desejo de não sentir

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Se não estou enganada, começou com Schopenhauer, que bebeu nas fontes do budismo: "a dor vem do desejo de não sentir dor". Renato Russo cantou, Freud ampliou, Nietzche se inspirou...

Existir dói e a felicidade é apenas um alívio à permanente angústia do ser. Pessimista, não? Mas até mesmo Vinícius de Moraes, que tantas vezes casou-se na busca cega pela felicidade, cantou: " ... a hora do sim é um descuido do não."

Pelo pouco que sei da filosofia budista, a felicidade plena estaria na total aniquilação da vontade. Ora, se a vontade é das molas propulsoras da vida, o sossego estaria fora dela? Pode parecer estranho o que vou dizer, mas o pensamento cristão primitivo também era de que a satisfação total não está neste plano de existência.

Acontece que hoje em dia idéias desse tipo não fazem qualquer sentido. É preciso aliviar as tensões, fugir dos conflitos, abstrair. Assumir sofrimento tornou-se fraqueza, e perder tempo com isso, mais ainda. Anestesiar é a regra, burlar o enfrentamento através do consumismo, da ostentação, da vida de aparências, da busca por status, reconhecimento, comprovação. Antidepressivos e ansiolíticos são mais vendidos nas farmácias que remédios para dor de cabeça. Esconde-se a insatisfação, como se não fosse parte (e grande) desse caminho - já cantava Renato: "o caminho é um só", e nele estarão, invariavelmente, as contingências da vida.

O fato é que essa evitação só aumenta a angústia do ser. Esse jogo de esconde-esconde consigo mesmo, dificilmente acaba bem: em algum momento, as forças reprimidas pra debaixo do tapete, clamam.

Vive melhor quem melhor entende que há momento de chorar, bem como há o de regozijar-se - assim dizia o sábio autor do livro de Eclesiastes. E os dois momentos precisam ser vividos na totalidade e com eles é necessário tirar lições. Não adianta espernear diante dos fatos. Muito menos negar-se às obrigações impostas pela vida, tanto fingindo que não existem, quanto lamentando-se: há que ser forte e viver o que há por aqui com dignidade. Só colhe quem planta, só acerta quem aprende com os erros, só se cura quem expõe a ferida, engole os remédios amargos e aguarda o tempo de regenerar e florescer. Viver não é só aventurar-se a todo tempo, nem apenas preservar-se: viver é também aceitar de uma vez por todas que raramente a vida é uma festa. Mas está cheia de boas surpresas que se revelam pra quem se atreve a abrir os olhos.


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