segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

À moda Maria

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Maria tinha João e pensava gostar dele. Mas não era suficiente. Maria sentia uma fome insaciável, feroz, que João jamais supriria, ficasse o tempo que fosse a ouvir-lhe os reclames, as histórias, as idéias. Maria precisava de atenção, de qualquer tipo e origem: era uma gula incontrolável. Por isso falava tanto. Achara ali a forma mais fácil de conseguir as pessoas para si: tinham que se calar e olhar pra ela. Então Maria falava. Falava da vida, do tempo, da rua, dos outros, de si mesma, do que lhe desse na telha, pra qualquer um.

Maria tinha João e pensava gostar dele. Dizia aos quatro ventos que jamais o trairia. Jamais! Parecia-lhe absurda a idéia, mesmo sabendo que outros a desejavam. Não tinha culpa alguma do desejo alheio: até gostava e estimulava. Eles jamais a tocariam, mas a atenção que recebia era irresistível. Prendia-os em conversas animadas, sobre qualquer tema que os mantivesse saciando-lhe a sede por carinho. Tanto lhe fazia se o assunto passava um pouco da conta. João não saberia, Maria nada fazia de errado, afinal. Os outros a cercarem, admirarem, elogiarem, lhe satisfazerem, era cabível. Não podiam era pôr a mão. Tudo era possível, se apenas ficasse no campo das idéias, inclusive no dela.

Maria parecia gostar de João, e também de cerveja. João não se incomodava, mas Maria achava que essa imagem não lhe cairia muito bem, então escondia de João suas saidinhas com os amigos. Era melhor que ele, de família conservadora, continuasse achando que ela era bem calminha. Quando João queria beber com alguém, porém, era recriminado: Maria não entendia a incoerência, ele afinal não é um cara conservador?

Algumas coisas que gostava de fazer, decidia não revelar a João. Coisas com as quais não concordava, calava-se para depois fazer do seu jeito, às escondidas, obviamente.

Maria tinha certeza que gostava de João, mas era verborrágica: não podia conter-se. Todos sabiam dos problemas dele; que ele tinha medo do escuro, que ligava pra ela chorando quando estava triste, que quando ardia em ciúmes ficava descontrolado. As mazelas de João, que ele confiara só a ela, Maria não apenas desprezava, mas revelava-as todas para as amigas, para os colegas, para quem se dispusesse a ouvi-la. A um amigo que a rondava com gracejos, Maria deixou que soubesse o quanto João era chato e inseguro. O amigo divertia-se em saber que o homem de Maria era tão vulnerável.

Pobre João, Maria dizia gostar dele. E só ela achava que ele nunca foi traído.


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Obs.: esse texto é só uma ilustração, Maria é mero instrumento de transmissão de uma idéia, não necessariamente inspirada em alguém ... 

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