quinta-feira, 8 de março de 2012

Escolho o Paraíso

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É famosa a sentença de Sartre: “o inferno são os outros”. Há muita coisa interessante contida nessa pequena afirmativa, então resolvi polemizar num ponto. Afinal, Sartre sabia o que estava dizendo?

Passamos a vida inteira submetidos à ação dos outros. Pra nascer, pra aprender, pra comprovar a passagem no mundo, pra conhecer, entender, formar opinião, sempre tem alguém junto. O outro afeta, interfere, fere, incomoda, desnuda, esclarece, existe junto, ocupa espaço. O outro enaltece, dá prazer, vicia, pede, cobra, incomoda, suga. O outro debocha, desdenha, rejeita, é livre, muito mais do que a gente gostaria, inclusive.

Seguimos então amando e odiando as escolhas e gostos dos demais. Enfim, não fosse suficiente ter que tomar o próprio rumo, o que determinado indivíduo resolve fazer com a vida também nos afeta.

Ainda que pareça uma tentativa de ajudar, sejamos francos: quando fazemos críticas,  aconselhamos ou nos metemos demais, a intenção verdadeira sempre é aperfeiçoar, salvar, ou adequar uma vida que não é a nossa, como se melhorias nos outros fosse mais fácil de empreender. Quando uma conduta alheia contraria nosso ponto de vista, logo trabalhamos para que o indivíduo transgressor pare com aquilo. Pare de nos frustrar, incomodar e facilite o nosso dia.

Acontece que as pessoas não mudam, elas só aprendem as coisas no seu próprio tempo, ou jamais. O que sentem, o que desejam, enfim, suas necessidades, é um conjunto único. Ou seja, onde dói em mim, pode fazer cócegas no outro. E ainda que eu tenha encontrado um meio pra viver a minha vida, não necessariamente isso seja útil pra mais alguém.

O que não dá é pra passar o resto da vida num tribunal, decidindo quem é culpado e merece castigo. Nem tentando salvar as pessoas das desventuras do mundo, que ora vêm esporadicamente, ora são desejo próprio. Pode parecer loucura, mas às vezes um reclamão, por exemplo, está se divertindo em sua insatisfação. Há gosto pra tudo! Parece que o que nos cabe é tão somente dizer o que pensamos, sugerir, dar a mão, oferecer a presença, e assim mesmo, quando convidados.

Fosse só isso, seria fácil: aprender a respeitar os limites da existência alheia requer esforço, mas não é impossível. O problema é o que as pessoas pensam de nós. Isso sim pode ser um inferno. Talvez ajude muito se reconhecermos que a perspectiva dos outros sobre qualquer assunto vem impregnada por suas próprias experiências; que aquilo que uma pessoa pensa sobre nós, tem mais a ver com ela mesma do que conosco. E que ter uma noção muito clara sobre si, avaliando o que pode melhorar e valorizando o que de fato é bom, pode trazer alguma estabilidade e independência diante das críticas que eternamente virão, os dedos em riste na cara, os olhares altivos de quem não conhece a nossa história.

Os outros podem ser o inferno ou o paraíso, bem como podemos ser inferno ou alento aos demais: a escolha é toda nossa. Talvez um pouco de coragem pra encarar a realidade e ajustar-se a ela, nos livre desse carma: aquele que aposta todas as fichas nos outros, está ferrado e ferrando. O que acha que pode ser bússola, está iludindo os incautos que compraram a idéia. E quem carrega nas costas alguém em plenas condições de se virar, uma hora tomba. E não vai sozinho.


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Um comentário:

Marize disse...

Gosto muito! Gosto muito do que escreve!!! bjos