domingo, 19 de agosto de 2012


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Era pouco afeito a aglomerações e tumultos em geral. Ao cinema fora duas vezes na vida, outras três ou quatro andara à toa em shoppings. Shows, só se fossem imperdíveis. Filas de banco, praias lotadas, 
teatro, eventos de todo tipo, abominava. Nunca saía de casa em feriados e desfrutava com gosto seus momentos de sossego esticado numa rede, na companhia de um bom livro.

Mas naquela noite não pôde evitar o tumulto: era seu aniversário, que fatalmente coincide com o dia dos namorados. Toda a gente daquela pequena cidade certamente abarrotaria os poucos restaurantes 
disponíveis. A mulher, entretanto, já lhe aguardava num dos estabelecimentos desde cedo. “É para garantir lugar”, ela disse. “Pelo menos isso”, pensou ele.

Comeram e confraternizaram em meio à algazarra, falatório e gritaria. Tão logo terminada a refeição e paga a conta, levantaram-se para sair. Suportou resignado o caminho até a saída, entre mesas extra, garçons 
atrasados, pessoas conversando e uma enorme fila de espera que começava no meio do restaurante e terminava no outro quarteirão.

Era-lhe custoso compreender o que movia as pessoas a situação tão aflitiva e por que razões estar num lugar como aquele era melhor que em casa, no silêncio de seus quartos, comemorando seus relacionamentos 
em paz.

Vencida a fila de ansiosos por uma mesa e já com o pé na porta, não pôde, porém, evitar o comentário:

- Se eu soubesse que estava assim, tinha pedido um café.

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3 comentários:

Thiago disse...

HAHAHAHAHAHAHA

Descrição mais que perfeita!!!

Bruno disse...

hahahahaha
Ela fica prestando atenção nesses detalhes, como o comentário sobre o café rs!

Raquel disse...

rs! tem um certo exagero, mas a gente sabe que parece, ne? A ultima frase é verídica ... rsrs