terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sweet Home

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Não era exatamente uma casa. Era um arremedo de casa, tipo de abrigo, feito com quinquilharias que juntou daqui e dali, pegando de quem lhe pudesse doar, seja lá o que fosse.

Casa, casa mesmo, casa sua, não tinha. Quando ventava forte, corria de lá. Se não conseguia, por ali ficava esperando a tormenta passar, tomando vento e chuva. No mais das vezes, ela acabava encontrando segurança em outra casa: do pai, da mãe, de um amor, de um amigo e permanecia às custas da generosidade alheia o quanto pudesse, a comer, beber e dormir até que o Sol saísse.

Daí que há algum tempo disseram-lhe que precisava de uma casa, assim só sua, pra onde ela sempre quisesse voltar. Não lhe pareceu boa idéia, a princípio: demandaria muito tempo e trabalho. Mas por fim decidiu-se. Desfez-se de tudo que tinha, comprou material, respirou fundo e pôs mãos à obra. Vez ou outra, alguém querido uniu-se à empreita: deu dicas, cavou para uma fundação, assentou uma fileira de tijolos. E ela tem um pintor que é um primor. Graças a ele, a casa ficou cheia de cores, suaves aqui, quentes ali. E no fim das contas, tudo por que passou para erguê-la foi esquecido no primeiro dia de sono em sua nova morada.

Guardou ali grandes tesouros, sem aquele antigo medo de ser roubada. Agora tinha casa segura. Com chave, cadeado, janelas e portas que se abrem somente quando ela quer, para quem quer. Para estes há sempre bolo, café passado na hora e aconchego. E como era bom retribuir o acolhimento que ela apenas recebia!

Da sua casa não precisa mais sair em tempo ruim. Não chove dentro, nem venta forte. No máximo a gente ouve os barulhos lá fora. Dá pra deitar e ler, ouvir música, dormir, tomar uma sopa bem quente.

Lá reservou lugar para entulhar as coisas que não consegue resolver. Não ficam mais expostas na sala, virando assunto pras visitas. Joga tudo no quarto da bagunça e tranca bem. Não incomodam e ficam por ali até que ela consiga, queira ou tome coragem para resolver.

Dentro de casa já tem encontrado quase tudo que precisa, sem dar trabalho a ninguém. Faz sua comida, faz seus planos, suas bagunças, faz sua arte, dá-se os parabéns. Trata dos seus machucados: tem remédio, tem pomada e água boricada. Tem pra si e tem pra quem chegar.

Sempre traz de suas andanças algo que possa tornar mais bonito o lar. A última novidade foram as jardineiras que instalou nas janelas. Já estão floridas e enchem seu coração de orgulho!

De fora vê-se as paredes brancas, as portas e janelas azuis. Ouve-se também uma música boa e inédita, que vem de dentro. É que lá no quarto tem um violão, que o seu amor está tocando e não pára jamais.

É só fechar os olhos e eu estou em casa.


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domingo, 19 de agosto de 2012


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Era pouco afeito a aglomerações e tumultos em geral. Ao cinema fora duas vezes na vida, outras três ou quatro andara à toa em shoppings. Shows, só se fossem imperdíveis. Filas de banco, praias lotadas, 
teatro, eventos de todo tipo, abominava. Nunca saía de casa em feriados e desfrutava com gosto seus momentos de sossego esticado numa rede, na companhia de um bom livro.

Mas naquela noite não pôde evitar o tumulto: era seu aniversário, que fatalmente coincide com o dia dos namorados. Toda a gente daquela pequena cidade certamente abarrotaria os poucos restaurantes 
disponíveis. A mulher, entretanto, já lhe aguardava num dos estabelecimentos desde cedo. “É para garantir lugar”, ela disse. “Pelo menos isso”, pensou ele.

Comeram e confraternizaram em meio à algazarra, falatório e gritaria. Tão logo terminada a refeição e paga a conta, levantaram-se para sair. Suportou resignado o caminho até a saída, entre mesas extra, garçons 
atrasados, pessoas conversando e uma enorme fila de espera que começava no meio do restaurante e terminava no outro quarteirão.

Era-lhe custoso compreender o que movia as pessoas a situação tão aflitiva e por que razões estar num lugar como aquele era melhor que em casa, no silêncio de seus quartos, comemorando seus relacionamentos 
em paz.

Vencida a fila de ansiosos por uma mesa e já com o pé na porta, não pôde, porém, evitar o comentário:

- Se eu soubesse que estava assim, tinha pedido um café.

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Só mais uma consumidora insatisfeita!

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Paro no posto para abastecer, o frentista se apresenta e cumpre seu papel. Findo o abastecimento, faz a cobrança, que pago com minha navalha o cartão. Agradeço, segue-se o costumeiro “de nada, tenha uma boa noite”. Dou a partida no veículo e nos primeiros metros, vem um barulho e gritos pedindo para parar. O iluminado não tinha desengatado a mangueira da bomba de gasolina. Avaria na lateral traseira do carro.


Um dia e meio depois, estou num restaurante especializado em camarão. O nome do lugar: Camarão e Cia. Vendem camarão de todas as formas: com arroz, macarrão, na salada, frito, no alho ... Eu então escolho um que vem com arroz e bacon. Após pagar, receber a comida e sentar pra comer, verifico transtornada: tem tudo no meio do arroz, menos camarão. Esqueceram de colocar.


Estamos numa loja de conveniências procurando aqueles sacos em que coloca-se o presente e amarra-se com fita, nem precisando embrulhar. Após correr a loja toda, desistimos e vamos pra fila com um papel comum. Pagamos. Olhamos pra trás: todo tipo de sacola pra presente dependurada. Além delas, outros papéis melhores e mais baratos do que o comprado, dispostos timidamente numa parede ao fundo. Pergunta-se por que são mais baratos: naqueles só tem duas folhas, nestes pagos, há três. Na hora de embrulhar, a surpresa: só tem duas folhas no pacote.


No taxi saindo do Shopping a caminho do Aeroporto, embarcamos preparadas para o conhecido percurso de oito quilômetros. Antes que me desse conta, porém, o motorista entra numa rua para pegar o caminho mais longo. Reclamo indignada, já que estávamos, antes, numa linha reta em direção ao meu destino. Ele explica ironicamente que por ali tem menos sinal. Quero descer, mas no lugar ermo em que estamos, não passa nenhum meio de transporte. Fazê-lo voltar e retomar o percurso mais curto àquela altura seria inútil. Pagamos o dobro do que deveria pelo serviço.


Com tudo isso, conclui-se: se esse negócio de “má fase” é coisa da minha cabeça, então o problema deve ser o país da Copa e das Olimpíadas, que cresce mas não aparece em serviços de qualidade, respeito ao consumidor e principalmente, competência no atendimento.






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terça-feira, 5 de junho de 2012

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Que eu não queria saber de amor e ele já tinha um.
Que a gente conversava eternamente e ria muito sem falar disso, nem de promessa, nem de esperança.
Também não desejava muito além daquelas horas imensas nos fazendo bem.
Que quando eu comecei a amar, nem sabia. E quando soube, não podia. E tantas vezes a saudade, a vontade de dizer o que sentia, ficava entalada e não saía, não devia.
E toda a felicidade que passou a estampar meu rosto, era à força reprimida, por que não era lícita, não era justa.
E nada havia de expectativas e planos, se não a honesta vontade de estar junto.
E acabei aprendendo a amar assim, por que o amor nasceu quietinho. E cresceu quietinho. E grande segue em silêncio, desse jeito calado, agindo mais do que falando, respeitando mais do que esperando, libertando mais do que atando, vivendo mais do que sonhando.

Eu só quero ser o bom lugar de quem amo. E amanhã e depois, quando chegarem.


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segunda-feira, 16 de abril de 2012

A única forma


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Não foi só para agradar,
manter as pessoas por perto
ou receber aplausos.


Não se deu quando fui preterida.
Tampouco porque desistiram de mim,
ou desafiaram-me dizendo que eu não tinha mais jeito,
nem porque aprendi alguma “lição” com as dores da vida.


Não foi para tornar-me a mulher perfeita e assim, mais segura.
Não foi porque alguém mais experiente me ensinou,
nem por um amor, pelo qual julgaria digno tornar-me melhor.
Não foi para mantê-lo, negociando dessa forma, minhas convicções.




Foi porque desisti da guerra inútil
que é adequar as pessoas às minhas necessidades
Foi porque eu não queria mais ter tantas necessidades.


E cansei de depender qual um bebê que não come,
não dorme, não descobre, 
nem aprende sem intervenção de alguém que o ame.


Foi porque pensei que era muito preciosa minha energia,
Para consumí-la com o que não tem solução.
E a vida que ainda me resta, precisava ser melhor.


Porque já não teria saúde para viver ansiosa,
tentando a todo tempo fazer-me entender para o mundo,
frustrando-me nas incompreensões.


Porque eu não suportaria seguir tão contrariada com o inevitável desencontro.
E já me exaurira buscando alívio à dureza no fôlego de outros.


Foi porque eu queria contar mais comigo,
fazer as pazes, me ajudar.
E também não aguentava mais amar de brincadeira,
amar de palavrinhas bonitas,
de beijos que desbotam na hora seguinte,
na hora de respeitar, de aceitar, de aquietar.
Farta de emoções em bolinhas de sabão,
Amor de efemeridades que não suportam o silêncio do outro,
A contrariedade, a insegurança.


Foi porque eu desejei amar melhor, mas me custando menos.
Torturando-me menos.


Foi porque eu tive coragem para abrir os olhos.
Decidindo pelo esforço e adiando a recompensa,
lancei-me à luta da vida real,
ela com as dificuldades todas e prazeres todos.


E assim foi possível sorrir pro verdadeiro,
e chorar tudo que vier, sofrer o que tiver,
gozar o que há para o dia, criar o que puder, realizar o que quiser.
Aceitar.


Sei que quando o fiz, todos à minha volta foram beneficiados.


Mas não foi por ninguém, foi por mim.


Foi pra ser mais feliz que eu mudei.




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quinta-feira, 8 de março de 2012

Escolho o Paraíso

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É famosa a sentença de Sartre: “o inferno são os outros”. Há muita coisa interessante contida nessa pequena afirmativa, então resolvi polemizar num ponto. Afinal, Sartre sabia o que estava dizendo?

Passamos a vida inteira submetidos à ação dos outros. Pra nascer, pra aprender, pra comprovar a passagem no mundo, pra conhecer, entender, formar opinião, sempre tem alguém junto. O outro afeta, interfere, fere, incomoda, desnuda, esclarece, existe junto, ocupa espaço. O outro enaltece, dá prazer, vicia, pede, cobra, incomoda, suga. O outro debocha, desdenha, rejeita, é livre, muito mais do que a gente gostaria, inclusive.

Seguimos então amando e odiando as escolhas e gostos dos demais. Enfim, não fosse suficiente ter que tomar o próprio rumo, o que determinado indivíduo resolve fazer com a vida também nos afeta.

Ainda que pareça uma tentativa de ajudar, sejamos francos: quando fazemos críticas,  aconselhamos ou nos metemos demais, a intenção verdadeira sempre é aperfeiçoar, salvar, ou adequar uma vida que não é a nossa, como se melhorias nos outros fosse mais fácil de empreender. Quando uma conduta alheia contraria nosso ponto de vista, logo trabalhamos para que o indivíduo transgressor pare com aquilo. Pare de nos frustrar, incomodar e facilite o nosso dia.

Acontece que as pessoas não mudam, elas só aprendem as coisas no seu próprio tempo, ou jamais. O que sentem, o que desejam, enfim, suas necessidades, é um conjunto único. Ou seja, onde dói em mim, pode fazer cócegas no outro. E ainda que eu tenha encontrado um meio pra viver a minha vida, não necessariamente isso seja útil pra mais alguém.

O que não dá é pra passar o resto da vida num tribunal, decidindo quem é culpado e merece castigo. Nem tentando salvar as pessoas das desventuras do mundo, que ora vêm esporadicamente, ora são desejo próprio. Pode parecer loucura, mas às vezes um reclamão, por exemplo, está se divertindo em sua insatisfação. Há gosto pra tudo! Parece que o que nos cabe é tão somente dizer o que pensamos, sugerir, dar a mão, oferecer a presença, e assim mesmo, quando convidados.

Fosse só isso, seria fácil: aprender a respeitar os limites da existência alheia requer esforço, mas não é impossível. O problema é o que as pessoas pensam de nós. Isso sim pode ser um inferno. Talvez ajude muito se reconhecermos que a perspectiva dos outros sobre qualquer assunto vem impregnada por suas próprias experiências; que aquilo que uma pessoa pensa sobre nós, tem mais a ver com ela mesma do que conosco. E que ter uma noção muito clara sobre si, avaliando o que pode melhorar e valorizando o que de fato é bom, pode trazer alguma estabilidade e independência diante das críticas que eternamente virão, os dedos em riste na cara, os olhares altivos de quem não conhece a nossa história.

Os outros podem ser o inferno ou o paraíso, bem como podemos ser inferno ou alento aos demais: a escolha é toda nossa. Talvez um pouco de coragem pra encarar a realidade e ajustar-se a ela, nos livre desse carma: aquele que aposta todas as fichas nos outros, está ferrado e ferrando. O que acha que pode ser bússola, está iludindo os incautos que compraram a idéia. E quem carrega nas costas alguém em plenas condições de se virar, uma hora tomba. E não vai sozinho.


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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

À espera do Grudento Perfeito

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Cansada de ouvir os queixumes mais recorrentes da mulherada: "ele não me liga durante o dia", ou "ele nunca me manda flores" ou "custa mandar umas mensagens de vez em quando?" ou "ele gosta demais daqueles tais amigos" ou "não sai daquele maldito video-game" e etc. Que fique claro, eu já fui uma dessas, e o que aprendi, tento compartilhar, mas as ameeeegas NÃO entendem.

Por isso cheguei à seguinte conclusão: toda mulher tem que passar pela mão de um Grudento! Não adianta eu falar, a mulher tem que vivenciar isso!

Tem que ser um grudento ideal, daquele que declara todo seu amor por você 895 vezes por dia nos primeiros meses, 293 no outro ano de namoro, e no fim, pelo menos umas três vezes ao dia, que é pra você nunca poder reclamar disso. Do tipo que manda flores, escreve coisinhas à mão, te liga antes de dormir, se mostra altamente preocupado com tudo que te diz respeito: onde foi, com quem, como e por quê. Pra uma mulher com ego fragilizado, em dúvidas quanto à própria valia, isso parece perfeito, não? O cara tá sempre cercando, auferindo o quão satisfeita você parece, a textura da pele, a temperatura do corpo, se está magra ou engordou. Toda mulher tem que passar um tempo assim, controlada por um grudento que a acompanhe em todos os lugares e ainda esteja sempre sorrindo pra todo mundo, bancando o agradável e tal. Toda mulher precisa de um grudento que faça amor com ela dizendo que a ama numa noite, pra na semana seguinte avisar que o amor acabou, que o sexo da semana passada foi um erro e que as declarações de amor eram apenas pra evitar problemas (pra ele). Tem que ser assim, do tipo que lhe apareça no mês seguinte com outra, na sua cara e pra todo mundo ver. Juro que se for diferente, você corre o sério risco de ficar num looping eterno achando que o marmanjo foi embora por sua culpa. E jamais poderá entender o seguinte:

Atitudes grudentas podem até ser evidência, mas não provam NADA. Apenas que o cara é assim, será sempre assim, e isso, muito provavelmente, não tem NADA a ver com você, filha. As coisas que ele faz é para atender uma demanda dele, e só. Outra qualquer seria tratada igualzinho. E mais: ficar dependendo de quem a bajule a toda hora pra ter certeza do seu valor, pra se sentir melhor, pra se sentir mais mulher, é colocar a sua vida na mão de outro e vai por mim, ninguém aguenta esse peso muito tempo! Vá fazer o que gosta, reforçar seu ego por si mesma, cuidar do cabelo, da pele, da cabeça, fazer as pazes com Deus, ler todos os livros, estudar música, fazer fotografia, terminar a faculdade, viajar com a família, com as ameeegas, sei lá, vá ser feliz. Jamais alguém será tudo que você precisa, e a recíproca é verdadeira! Querer ser tudo na vida de alguém é fugir da realidade. Encara logo isso, chora o que for preciso, mas livre-se.

Não tô dizendo aqui que declarações de amor são dispensáveis, por que não são!!! Nada melhor que amar e ser amada, é tudo que a gente quer, é bom demais, é maravilhoso, mas, é preciso coerência. O amor do outro não necessariamente se revela nos clichês, em cuidado excessivo, telefonemas intermináveis, flores ou declarações repetitivas. O amor pode se revelar de outras formas, em outros gestos e é preciso lucidez pra  reconhecer a linguagem que o outro usa pra se expressar e respeitar isso. Ou não. rs


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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Pra que mais?

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Tá bom aqui, amor, não precisamos sair. Eu não tenho fome, não tenho frio, não tenho medo. Não o suficiente pra me desvencilhar do seu abraço.

Pra que sair, amor? Pra onde vamos se juntos aqui voamos tão longe? O nosso papo nos conduz a lugares nunca habitados, o nosso amor sempre me dá a conhecer algum país sem nome, uma mata virgem, um céu nunca visto. Eu não quero flashes, nem praias, aventuras. Não assim, como desejo seu abraço.

Não há surpresa maior que a menor das descobertas que faço toda vez que estou te ouvindo. Não há lugar ou cultura, cores ou sabores que me interesse mais que as coisas que compõem o seu mundo, amor. Eu não ligo, não mando e-mail, eu não clico, não quero. Só preciso ir pra você, ouvir a música que você toca, aquela que a gente cantarola a tarde toda, que você ensina sem pressa, nota por nota, aquela que a gente já sabe de cor.

Deixa ficar, amor, assim como a gente está. Onde e como não faz diferença, eu gosto mesmo é de me aninhar no seu abraço.


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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Que ano!

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Tinha tudo pra ser difícil esse ano. Tinha tudo para sabotá-lo, ficar remoendo o passado recente, ficar tentando resolver o que já estava fracassado, tentando resgatar minha auto-estima num navio naufragado. Tinha tudo pra ter dias difíceis, mas não lembro de nenhum dia triste em 2011. Nisso sim, vejo o cuidado de Deus, apesar de ser a última a merecer qualquer favor. A única coisa que eu pedia antes de começar o ano era que me ajudasse a passar por um processo que só estava começando.

Então deu-se a queima de fogos. Não tinha grandes expectativas. Se meus dias fossem sem dor, era mais do que suficiente. Foi um árduo trabalho para evitar a auto-sabotagem. Precisava ter dias bonitos. E a beleza aparece nos detalhes. No meu caso, fazendo os pais, irmãos, amigos mais íntimos, felizes. E eles queriam meu sorriso. Ouvir minha conversa. Saber dos meus planos.

Dias bonitos começavam quando eu conseguia mudar coisas que me incomodavam: a ordem nas gavetas, ordem na mesa do trabalho. Disciplina me fez muito bem. Natação, musculação, horários bem cumpridos. Alimentação bem feita, água. Carinho comigo: cuidados com a pele, com o cabelo. Nada de futilidades, excessos ou extravagâncias que eu não pudesse pagar. Terminar o tratamento dental, fazer uma poupança. A beleza vinha em estar com amigos, cultivá-los, rir e fazer rir. Cantar, tocar violão (muito mal, depois percebi ... rs). Praia, Sol, verde. A beleza passou a fazer parte dos meus olhos. Passei a ver as cores dos dias. Mesmo em dias acizentados. Havia beleza em ter planos a longo prazo, e nenhum a curto. Viver o que há para hoje. Fazer com amor tudo que estivesse à mão pra fazer. Cumprir as obrigações também me parecia belo.

Eu só chorei de gratidão esse ano. Chorei quando tive que fazer a coisa certa, nas diversas vezes em que me despedi por amor. Fui embora pra sempre umas quinze vezes. Aí eu chorei, mas não foi de tristeza. Havia em mim a convicção de estar fazendo o certo, mesmo que tardiamente. As lágrimas eram por perceber que ainda estava viva a emoção. E ela foi desperta sem que eu me desse conta, num momento sombrio, como uma semente que brota de terra infértil, assolada. O imponderável.

Eu não briguei esse ano, não falei alto, não quis me impôr. Se me frustrei, aceitei. Se me irritei, acalmei-me. Se me desesperei, sentei e esperei passar. Eu não tentei mudar as pessoas, nem convencer, nem argumentar. Eu não desrespeitei o espaço nem o limite de quem se relacionou comigo. Eu não fui desrespeitada. Eu fui aceita e aceitei. Eu não barganhei, nem fiz coisas esperando recompensa. Fiz até onde achava que podia. Esse ano, fiz as pazes com pessoas que me amavam mesmo tendo errado comigo e pedi perdão. Esse ano perdoei quem não faz questão de perdão. Esse ano vi as feridas se fechando, criando casquinha e caindo de velhas.

Foi um ano de transformações profundas. Um ano para enxergar-me diferente do que desejaria que fosse, diferente do que pensam que sou, apenas como de fato sou. Não é uma tarefa fácil, foi preciso coragem. Um ano para ser intransigente quanto às decisões que tomei: tudo que quis mudar, mudei. Tudo que desejei aprender, aprendi. Tudo que me dispus a encarar, encarei. Todos os dias foram vencidos. Um ano para não mais adiar, um ano para realizar o sonho de ter a minha casa. E onde eu pensei que poderia chegar, superei.

Um ano para perceber que sou tão suscetível ao erro quanto qualquer um.

Um ano de surpresa, um ano para amar as pessoas, sejam como forem, da melhor forma que eu puder, mesmo às vezes falhando com elas. Um ano para perceber que não se pode amar e respeitar a natureza do outro, sem antes aprender a fazê-lo por si mesma.


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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Longe de ser

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Não é amor quando você tem planos perfeitos para a pessoa e os coloca como prioridade, desprezando o que ela deseja pra si mesma: é egoísmo e falta de humildade.
Não é amor aquela insegurança, o medo que o outro se vá, troque de amor, minta pra você, decida fazer outra coisa da vida que não satisfazê-lo: é imaturidade. Não existem certezas na vida e a única segurança que se pode ter é em si mesmo e em Deus (para quem tem a sorte de acreditar nEle).
Não é amor quando o outro tem que lhe dizer a toda hora onde está, com quem, por que, quando volta. Não chega nem a ser preocupação ou cuidado: é controle, é a inútil tentativa de evitar aquilo que, se tiver que acontecer, acontecerá.
Não é amor esperar ou cobrar atenção desmedida: é falta de si mesmo, de cuidar de si, de se amar. Quando a gente não se garante, precisa que o outro a todo tempo nos comprove que somos legais, amados, respeitados, que fazemos falta.
Não é amor dizer que ama toda hora: pode ser a tentativa de se convencer disso, ou de responsabilizar o outro, como se dissesse: "não esquece disso, cuide bem do sentimento que lhe devoto".
Não é amor criticar a toda hora coisas que lhe incomodam no outro, tentando transformá-lo num ser humano mais adequado pra você: é falta de respeito. As pessoas não mudam muito ao longo da vida, a não ser por si mesmas, jamais por alguém. Elas estão buscando satisfação na vida tanto quanto você. Ou você ama com tudo que ela é, ou não ama e pára de perturbar a vida dos outros com isso.
Não é amor ocupar todos os espaços da vida da pessoa, querer ir a todos os lugares que o outro frequenta, trabalho, igreja, academia, faculdade e até no banheiro: é controle, é brincar de Big Brother, é querer fiscalizar a vida alheia para seu próprio doentio benefício.
Não é amor quando a pessoa decide sair da sua vida e você implora, tenta convencer, relembra todos os momentos, questiona todas as promessas. Não é amor nem mesmo o que se sofre no fim: dói a decepção, a frustração, dói o apego a idéia de amor, aos planos juntos que foram por água abaixo, dói a mudança de hábito. Tudo isso mata a gente. Mas amor mesmo, não dói. A gente sofre por essas coisas, mas por amor, não. Quem ama, respeita a decisão do outro e segue.
Não é amor querer exclusividade nos interesses do outro: é ilusão, expectativa irrealizável. Amor faz desejar a felicidade do outro e é realista no sentido de reconhecer que somos imperfeitos e jamais seremos tudo que satisfaz a quem amamos. Somos parte, mas nunca tudo. O tudo do outro são seus sonhos, suas vontades, seus amigos, sua família, seus outros afetos, além de nós.

É preciso maturidade pra amar com qualidade. Não se queima etapas na vida.
Só depois de errar, permitir que os outros errem com a gente e decidir pela mudança, é possível aceitar a vida como ela é, os outros como são, e principalmente a si mesmo.


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

À moda Maria

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Maria tinha João e pensava gostar dele. Mas não era suficiente. Maria sentia uma fome insaciável, feroz, que João jamais supriria, ficasse o tempo que fosse a ouvir-lhe os reclames, as histórias, as idéias. Maria precisava de atenção, de qualquer tipo e origem: era uma gula incontrolável. Por isso falava tanto. Achara ali a forma mais fácil de conseguir as pessoas para si: tinham que se calar e olhar pra ela. Então Maria falava. Falava da vida, do tempo, da rua, dos outros, de si mesma, do que lhe desse na telha, pra qualquer um.

Maria tinha João e pensava gostar dele. Dizia aos quatro ventos que jamais o trairia. Jamais! Parecia-lhe absurda a idéia, mesmo sabendo que outros a desejavam. Não tinha culpa alguma do desejo alheio: até gostava e estimulava. Eles jamais a tocariam, mas a atenção que recebia era irresistível. Prendia-os em conversas animadas, sobre qualquer tema que os mantivesse saciando-lhe a sede por carinho. Tanto lhe fazia se o assunto passava um pouco da conta. João não saberia, Maria nada fazia de errado, afinal. Os outros a cercarem, admirarem, elogiarem, lhe satisfazerem, era cabível. Não podiam era pôr a mão. Tudo era possível, se apenas ficasse no campo das idéias, inclusive no dela.

Maria parecia gostar de João, e também de cerveja. João não se incomodava, mas Maria achava que essa imagem não lhe cairia muito bem, então escondia de João suas saidinhas com os amigos. Era melhor que ele, de família conservadora, continuasse achando que ela era bem calminha. Quando João queria beber com alguém, porém, era recriminado: Maria não entendia a incoerência, ele afinal não é um cara conservador?

Algumas coisas que gostava de fazer, decidia não revelar a João. Coisas com as quais não concordava, calava-se para depois fazer do seu jeito, às escondidas, obviamente.

Maria tinha certeza que gostava de João, mas era verborrágica: não podia conter-se. Todos sabiam dos problemas dele; que ele tinha medo do escuro, que ligava pra ela chorando quando estava triste, que quando ardia em ciúmes ficava descontrolado. As mazelas de João, que ele confiara só a ela, Maria não apenas desprezava, mas revelava-as todas para as amigas, para os colegas, para quem se dispusesse a ouvi-la. A um amigo que a rondava com gracejos, Maria deixou que soubesse o quanto João era chato e inseguro. O amigo divertia-se em saber que o homem de Maria era tão vulnerável.

Pobre João, Maria dizia gostar dele. E só ela achava que ele nunca foi traído.


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Obs.: esse texto é só uma ilustração, Maria é mero instrumento de transmissão de uma idéia, não necessariamente inspirada em alguém ... 

domingo, 4 de dezembro de 2011

Desejo de não sentir

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Se não estou enganada, começou com Schopenhauer, que bebeu nas fontes do budismo: "a dor vem do desejo de não sentir dor". Renato Russo cantou, Freud ampliou, Nietzche se inspirou...

Existir dói e a felicidade é apenas um alívio à permanente angústia do ser. Pessimista, não? Mas até mesmo Vinícius de Moraes, que tantas vezes casou-se na busca cega pela felicidade, cantou: " ... a hora do sim é um descuido do não."

Pelo pouco que sei da filosofia budista, a felicidade plena estaria na total aniquilação da vontade. Ora, se a vontade é das molas propulsoras da vida, o sossego estaria fora dela? Pode parecer estranho o que vou dizer, mas o pensamento cristão primitivo também era de que a satisfação total não está neste plano de existência.

Acontece que hoje em dia idéias desse tipo não fazem qualquer sentido. É preciso aliviar as tensões, fugir dos conflitos, abstrair. Assumir sofrimento tornou-se fraqueza, e perder tempo com isso, mais ainda. Anestesiar é a regra, burlar o enfrentamento através do consumismo, da ostentação, da vida de aparências, da busca por status, reconhecimento, comprovação. Antidepressivos e ansiolíticos são mais vendidos nas farmácias que remédios para dor de cabeça. Esconde-se a insatisfação, como se não fosse parte (e grande) desse caminho - já cantava Renato: "o caminho é um só", e nele estarão, invariavelmente, as contingências da vida.

O fato é que essa evitação só aumenta a angústia do ser. Esse jogo de esconde-esconde consigo mesmo, dificilmente acaba bem: em algum momento, as forças reprimidas pra debaixo do tapete, clamam.

Vive melhor quem melhor entende que há momento de chorar, bem como há o de regozijar-se - assim dizia o sábio autor do livro de Eclesiastes. E os dois momentos precisam ser vividos na totalidade e com eles é necessário tirar lições. Não adianta espernear diante dos fatos. Muito menos negar-se às obrigações impostas pela vida, tanto fingindo que não existem, quanto lamentando-se: há que ser forte e viver o que há por aqui com dignidade. Só colhe quem planta, só acerta quem aprende com os erros, só se cura quem expõe a ferida, engole os remédios amargos e aguarda o tempo de regenerar e florescer. Viver não é só aventurar-se a todo tempo, nem apenas preservar-se: viver é também aceitar de uma vez por todas que raramente a vida é uma festa. Mas está cheia de boas surpresas que se revelam pra quem se atreve a abrir os olhos.


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Humildade é pra quem se banca

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Todo mundo acha que uma pessoa dita orgulhosa tem muito amor próprio. Todo mundo associa orgulho com altivez, arrogância. Ou então com a necessidade de ostentar seus troféus: um filho que se formou, a casa nova que construiu, a beleza, o intelecto, o namorado novo, o diploma, enfim, as conquistas. Orgulho também pode ser associado com a incapacidade de perdoar, ou assumir seus erros: "Fulano não esquece o mal que lhe fazem", "Esse nunca vai assumir que errou, é muito orgulhoso", e assim por diante.

Ninguém pensa que orgulho essencialmente está relacionado à necessidade de um "feedback" dos outros. Já parou pra pensar? Se orgulho é ostentar-se, é necessário que os outros reconheçam o valor do que se exibe. Se orgulho está relacionado com a incapacidade de perdoar, é preciso que o ofensor seja "punido" pelo mal que causou. E se tem a ver com a dificuldade de assumir os erros, demonstra o receio de parecer frágil ou inferior.

Desse modo, o orgulhoso excessivo é um sujeito que precisa por demais dos outros e da aceitação alheia. Precisa que as pessoas validem (valorizem) o que é, para garantir e certificar-se disso. É como se simplesmente reconhecer o próprio valor não fosse suficiente. O orgulhoso carece de si mesmo, não tem certeza de sua própria perspectiva, não está seguro do seu julgamento: depende dos demais.

Quem se garante até gosta de ser admirado por suas virtudes, suas conquistas, mas não precisa disso pra viver. Assume seus erros por estar certo de que não é melhor nem pior que qualquer outro ser humano. Confia em sua avaliação e procura aprimorar-se para viver cada vez mais em paz com seus próprios valores. Está aberto às críticas. Quem se garante sabe perdoar, por que assume que todos estão no mundo buscando suas próprias satisfações, sobrevivendo às dores da existência: às vezes errando, às vezes acertando. Quem se garante também se ofende, mas não precisa que os outros reconheçam seus erros, não depende da mudança do ponto de vista alheio para ter certeza absoluta naquilo em que acredita ser a atitude correta.

Orgulho é falta de confiança em si mesmo. É falta de recursos. É carência.


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Do que não se pode mudar

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As pessoas sempre nos verão de acordo com os próprios padrões: suas vivências e necessidades. Nada há que se possa fazer a respeito, a não ser, aceitar. É da vida: cada um vê como quer, como precisa, como aguenta, como aprendeu. E a gente não pode seguir preocupado com isso. Está fora do controle a interpretação que os outros farão das nossas ações, reações, ou palavras que proferimos. Seremos sempre julgados nos tribunais de cada um e por vezes, sem direito à defesa, do mesmo modo que estamos a todo tempo julgando os demais.

Daí que um bom remédio pra essa tendência quase incontrolável de tentar mudar ou moldar a opinião alheia, é termos muito firme nossa própria idéia do que somos. Se estivermos em paz com a vida que escolhemos levar, tendo nossos julgamentos de acordo com os atos, se conhecermos bem as fraquezas, os limites, aquilo que nos desespera e nos agride e praticarmos um auto-respeito, cuidando bem da gente, ficaremos livre dos outros, e os libertaremos também.

Não dá pra viver tentando provar pra alguém o quanto somos bons ou maus, espertos ou inteligentes, bonitos ou vitoriosos. Não dá pra buscar aplauso ou reconhecimento o tempo todo. É preciso simplesmente saber, lá dentro, que somos comuns a todos os homens em muitas coisas, mas algumas, por menores que sejam, nos diferenciam dos demais a ponto de fazer-nos únicos.


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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Criança cansa

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É admirável a forma como funciona a natureza. Ela impôe ritmos e algumas certezas à vida, principalmente em se tratando de aprendizado, crescimento, evolução. A gente vê isso no bebê. É a coisa mais fofa, toda mãe sabe o quanto é prazeroso estar com um bebêzinho e o quanto recompensa com seus primeiros gestos. Cada conquista é curtida com alegria. Mas a verdade é que todos desejam que a criança se desenvolva.

Por que criança cansa!

É um ser muito dependente da mãe. E por melhores que sejam as experiências e o ganho de tê-la, cuidá-la e ensiná-la, suga as energias de quem dela cuida, exige dedicação extrema. Não por acaso, com o passar do tempo, a criança começa a ter curiosidade pelo mundo que a cerca, esquece um pouco o peito da mãe. É compelida por instinto a buscar formas de se locomover, aprender a andar e ganhar autonomia. Pais e filhos desejam essa evolução. Ao mesmo tempo em que temem perder-se, soltar as mãos, algo inconsciente empurra todos os envolvidos para a libertação.

Nós também precisamos permitir que evoluam aqueles que convivem conosco. Quando alguém cria uma relação de extrema dependência para conosco, garantimos assim total controle. Contudo, submetemo-nos a um fardo, que cedo ou tarde não suportaremos carregar. Pode parecer, no começo, prazerosa a sensação de que somos responsáveis por alguém, necessários e por consequência amados. Mas o tempo sempre nos prova que o esforço é maior que a recompensa. É preciso soltar, liberar e estimular quem supostamente amamos, para que faça suas escolhas por conta própria, quebre a cabeça e aprenda nos seus tempos, para que esteja conosco inteiramente e não apenas por necessidade, medo ou comodidade.

O contrário também é verdadeiro: seria ótimo viver para sempre como criança, recebendo cuidado, atenção e aplausos dos adultos, divertindo-se, fantasiando e deixando toda a responsabilidade da existência sobre os ombros de outro. Só que ninguém aguenta viver assim: a vida clama por evolução. É preciso realizar, desenvolver os potenciais, aprender, descobrir, crescer e passar adiante. Quem nega o chamado da Vida, submete-se a uma subsistência em que outros serão sempre os culpados pelo que não realizou, pelo vazio ou pelo tédio dos dias.

Assumamos as rédeas, tomemos os remos, sejamos gratos pela oportunidade de explorar o mundo do qual somos parte e que trazemos conosco. Libertemos os outros, deixemos que vivam suas experiências, estejamos dispostos a ajudar quando solicitados. Caminhemos juntos, ajudando e recebendo ajuda, trocando experiências, mas nunca sendo arrastados ou carregados como anexos, sem desejos, sem coragem. Nunca algemando para que sigam conosco.



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