*
Tá bom aqui, amor, não precisamos sair. Eu não tenho fome, não tenho frio, não tenho medo. Não o suficiente pra me desvencilhar do seu abraço.
Pra que sair, amor? Pra onde vamos se juntos aqui voamos tão longe? O nosso papo nos conduz a lugares nunca habitados, o nosso amor sempre me dá a conhecer algum país sem nome, uma mata virgem, um céu nunca visto. Eu não quero flashes, nem praias, aventuras. Não assim, como desejo seu abraço.
Não há surpresa maior que a menor das descobertas que faço toda vez que estou te ouvindo. Não há lugar ou cultura, cores ou sabores que me interesse mais que as coisas que compõem o seu mundo, amor. Eu não ligo, não mando e-mail, eu não clico, não quero. Só preciso ir pra você, ouvir a música que você toca, aquela que a gente cantarola a tarde toda, que você ensina sem pressa, nota por nota, aquela que a gente já sabe de cor.
Deixa ficar, amor, assim como a gente está. Onde e como não faz diferença, eu gosto mesmo é de me aninhar no seu abraço.
*
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Que ano!
*
Tinha tudo pra ser difícil esse ano. Tinha tudo para sabotá-lo, ficar remoendo o passado recente, ficar tentando resolver o que já estava fracassado, tentando resgatar minha auto-estima num navio naufragado. Tinha tudo pra ter dias difíceis, mas não lembro de nenhum dia triste em 2011. Nisso sim, vejo o cuidado de Deus, apesar de ser a última a merecer qualquer favor. A única coisa que eu pedia antes de começar o ano era que me ajudasse a passar por um processo que só estava começando.
Então deu-se a queima de fogos. Não tinha grandes expectativas. Se meus dias fossem sem dor, era mais do que suficiente. Foi um árduo trabalho para evitar a auto-sabotagem. Precisava ter dias bonitos. E a beleza aparece nos detalhes. No meu caso, fazendo os pais, irmãos, amigos mais íntimos, felizes. E eles queriam meu sorriso. Ouvir minha conversa. Saber dos meus planos.
Dias bonitos começavam quando eu conseguia mudar coisas que me incomodavam: a ordem nas gavetas, ordem na mesa do trabalho. Disciplina me fez muito bem. Natação, musculação, horários bem cumpridos. Alimentação bem feita, água. Carinho comigo: cuidados com a pele, com o cabelo. Nada de futilidades, excessos ou extravagâncias que eu não pudesse pagar. Terminar o tratamento dental, fazer uma poupança. A beleza vinha em estar com amigos, cultivá-los, rir e fazer rir. Cantar, tocar violão (muito mal, depois percebi ... rs). Praia, Sol, verde. A beleza passou a fazer parte dos meus olhos. Passei a ver as cores dos dias. Mesmo em dias acizentados. Havia beleza em ter planos a longo prazo, e nenhum a curto. Viver o que há para hoje. Fazer com amor tudo que estivesse à mão pra fazer. Cumprir as obrigações também me parecia belo.
Eu só chorei de gratidão esse ano. Chorei quando tive que fazer a coisa certa, nas diversas vezes em que me despedi por amor. Fui embora pra sempre umas quinze vezes. Aí eu chorei, mas não foi de tristeza. Havia em mim a convicção de estar fazendo o certo, mesmo que tardiamente. As lágrimas eram por perceber que ainda estava viva a emoção. E ela foi desperta sem que eu me desse conta, num momento sombrio, como uma semente que brota de terra infértil, assolada. O imponderável.
Eu não briguei esse ano, não falei alto, não quis me impôr. Se me frustrei, aceitei. Se me irritei, acalmei-me. Se me desesperei, sentei e esperei passar. Eu não tentei mudar as pessoas, nem convencer, nem argumentar. Eu não desrespeitei o espaço nem o limite de quem se relacionou comigo. Eu não fui desrespeitada. Eu fui aceita e aceitei. Eu não barganhei, nem fiz coisas esperando recompensa. Fiz até onde achava que podia. Esse ano, fiz as pazes com pessoas que me amavam mesmo tendo errado comigo e pedi perdão. Esse ano perdoei quem não faz questão de perdão. Esse ano vi as feridas se fechando, criando casquinha e caindo de velhas.
Foi um ano de transformações profundas. Um ano para enxergar-me diferente do que desejaria que fosse, diferente do que pensam que sou, apenas como de fato sou. Não é uma tarefa fácil, foi preciso coragem. Um ano para ser intransigente quanto às decisões que tomei: tudo que quis mudar, mudei. Tudo que desejei aprender, aprendi. Tudo que me dispus a encarar, encarei. Todos os dias foram vencidos. Um ano para não mais adiar, um ano para realizar o sonho de ter a minha casa. E onde eu pensei que poderia chegar, superei.
Um ano para perceber que sou tão suscetível ao erro quanto qualquer um.
Um ano de surpresa, um ano para amar as pessoas, sejam como forem, da melhor forma que eu puder, mesmo às vezes falhando com elas. Um ano para perceber que não se pode amar e respeitar a natureza do outro, sem antes aprender a fazê-lo por si mesma.
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Tinha tudo pra ser difícil esse ano. Tinha tudo para sabotá-lo, ficar remoendo o passado recente, ficar tentando resolver o que já estava fracassado, tentando resgatar minha auto-estima num navio naufragado. Tinha tudo pra ter dias difíceis, mas não lembro de nenhum dia triste em 2011. Nisso sim, vejo o cuidado de Deus, apesar de ser a última a merecer qualquer favor. A única coisa que eu pedia antes de começar o ano era que me ajudasse a passar por um processo que só estava começando.
Então deu-se a queima de fogos. Não tinha grandes expectativas. Se meus dias fossem sem dor, era mais do que suficiente. Foi um árduo trabalho para evitar a auto-sabotagem. Precisava ter dias bonitos. E a beleza aparece nos detalhes. No meu caso, fazendo os pais, irmãos, amigos mais íntimos, felizes. E eles queriam meu sorriso. Ouvir minha conversa. Saber dos meus planos.
Dias bonitos começavam quando eu conseguia mudar coisas que me incomodavam: a ordem nas gavetas, ordem na mesa do trabalho. Disciplina me fez muito bem. Natação, musculação, horários bem cumpridos. Alimentação bem feita, água. Carinho comigo: cuidados com a pele, com o cabelo. Nada de futilidades, excessos ou extravagâncias que eu não pudesse pagar. Terminar o tratamento dental, fazer uma poupança. A beleza vinha em estar com amigos, cultivá-los, rir e fazer rir. Cantar, tocar violão (muito mal, depois percebi ... rs). Praia, Sol, verde. A beleza passou a fazer parte dos meus olhos. Passei a ver as cores dos dias. Mesmo em dias acizentados. Havia beleza em ter planos a longo prazo, e nenhum a curto. Viver o que há para hoje. Fazer com amor tudo que estivesse à mão pra fazer. Cumprir as obrigações também me parecia belo.
Eu só chorei de gratidão esse ano. Chorei quando tive que fazer a coisa certa, nas diversas vezes em que me despedi por amor. Fui embora pra sempre umas quinze vezes. Aí eu chorei, mas não foi de tristeza. Havia em mim a convicção de estar fazendo o certo, mesmo que tardiamente. As lágrimas eram por perceber que ainda estava viva a emoção. E ela foi desperta sem que eu me desse conta, num momento sombrio, como uma semente que brota de terra infértil, assolada. O imponderável.
Eu não briguei esse ano, não falei alto, não quis me impôr. Se me frustrei, aceitei. Se me irritei, acalmei-me. Se me desesperei, sentei e esperei passar. Eu não tentei mudar as pessoas, nem convencer, nem argumentar. Eu não desrespeitei o espaço nem o limite de quem se relacionou comigo. Eu não fui desrespeitada. Eu fui aceita e aceitei. Eu não barganhei, nem fiz coisas esperando recompensa. Fiz até onde achava que podia. Esse ano, fiz as pazes com pessoas que me amavam mesmo tendo errado comigo e pedi perdão. Esse ano perdoei quem não faz questão de perdão. Esse ano vi as feridas se fechando, criando casquinha e caindo de velhas.
Foi um ano de transformações profundas. Um ano para enxergar-me diferente do que desejaria que fosse, diferente do que pensam que sou, apenas como de fato sou. Não é uma tarefa fácil, foi preciso coragem. Um ano para ser intransigente quanto às decisões que tomei: tudo que quis mudar, mudei. Tudo que desejei aprender, aprendi. Tudo que me dispus a encarar, encarei. Todos os dias foram vencidos. Um ano para não mais adiar, um ano para realizar o sonho de ter a minha casa. E onde eu pensei que poderia chegar, superei.
Um ano para perceber que sou tão suscetível ao erro quanto qualquer um.
Um ano de surpresa, um ano para amar as pessoas, sejam como forem, da melhor forma que eu puder, mesmo às vezes falhando com elas. Um ano para perceber que não se pode amar e respeitar a natureza do outro, sem antes aprender a fazê-lo por si mesma.
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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Longe de ser
*
Não é amor quando você tem planos perfeitos para a pessoa e os coloca como prioridade, desprezando o que ela deseja pra si mesma: é egoísmo e falta de humildade.
Não é amor aquela insegurança, o medo que o outro se vá, troque de amor, minta pra você, decida fazer outra coisa da vida que não satisfazê-lo: é imaturidade. Não existem certezas na vida e a única segurança que se pode ter é em si mesmo e em Deus (para quem tem a sorte de acreditar nEle).
Não é amor quando o outro tem que lhe dizer a toda hora onde está, com quem, por que, quando volta. Não chega nem a ser preocupação ou cuidado: é controle, é a inútil tentativa de evitar aquilo que, se tiver que acontecer, acontecerá.
Não é amor esperar ou cobrar atenção desmedida: é falta de si mesmo, de cuidar de si, de se amar. Quando a gente não se garante, precisa que o outro a todo tempo nos comprove que somos legais, amados, respeitados, que fazemos falta.
Não é amor dizer que ama toda hora: pode ser a tentativa de se convencer disso, ou de responsabilizar o outro, como se dissesse: "não esquece disso, cuide bem do sentimento que lhe devoto".
Não é amor criticar a toda hora coisas que lhe incomodam no outro, tentando transformá-lo num ser humano mais adequado pra você: é falta de respeito. As pessoas não mudam muito ao longo da vida, a não ser por si mesmas, jamais por alguém. Elas estão buscando satisfação na vida tanto quanto você. Ou você ama com tudo que ela é, ou não ama e pára de perturbar a vida dos outros com isso.
Não é amor ocupar todos os espaços da vida da pessoa, querer ir a todos os lugares que o outro frequenta, trabalho, igreja, academia, faculdade e até no banheiro: é controle, é brincar de Big Brother, é querer fiscalizar a vida alheia para seu próprio doentio benefício.
Não é amor quando a pessoa decide sair da sua vida e você implora, tenta convencer, relembra todos os momentos, questiona todas as promessas. Não é amor nem mesmo o que se sofre no fim: dói a decepção, a frustração, dói o apego a idéia de amor, aos planos juntos que foram por água abaixo, dói a mudança de hábito. Tudo isso mata a gente. Mas amor mesmo, não dói. A gente sofre por essas coisas, mas por amor, não. Quem ama, respeita a decisão do outro e segue.
Não é amor querer exclusividade nos interesses do outro: é ilusão, expectativa irrealizável. Amor faz desejar a felicidade do outro e é realista no sentido de reconhecer que somos imperfeitos e jamais seremos tudo que satisfaz a quem amamos. Somos parte, mas nunca tudo. O tudo do outro são seus sonhos, suas vontades, seus amigos, sua família, seus outros afetos, além de nós.
É preciso maturidade pra amar com qualidade. Não se queima etapas na vida.
Só depois de errar, permitir que os outros errem com a gente e decidir pela mudança, é possível aceitar a vida como ela é, os outros como são, e principalmente a si mesmo.
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Não é amor quando você tem planos perfeitos para a pessoa e os coloca como prioridade, desprezando o que ela deseja pra si mesma: é egoísmo e falta de humildade.
Não é amor aquela insegurança, o medo que o outro se vá, troque de amor, minta pra você, decida fazer outra coisa da vida que não satisfazê-lo: é imaturidade. Não existem certezas na vida e a única segurança que se pode ter é em si mesmo e em Deus (para quem tem a sorte de acreditar nEle).
Não é amor quando o outro tem que lhe dizer a toda hora onde está, com quem, por que, quando volta. Não chega nem a ser preocupação ou cuidado: é controle, é a inútil tentativa de evitar aquilo que, se tiver que acontecer, acontecerá.
Não é amor esperar ou cobrar atenção desmedida: é falta de si mesmo, de cuidar de si, de se amar. Quando a gente não se garante, precisa que o outro a todo tempo nos comprove que somos legais, amados, respeitados, que fazemos falta.
Não é amor dizer que ama toda hora: pode ser a tentativa de se convencer disso, ou de responsabilizar o outro, como se dissesse: "não esquece disso, cuide bem do sentimento que lhe devoto".
Não é amor criticar a toda hora coisas que lhe incomodam no outro, tentando transformá-lo num ser humano mais adequado pra você: é falta de respeito. As pessoas não mudam muito ao longo da vida, a não ser por si mesmas, jamais por alguém. Elas estão buscando satisfação na vida tanto quanto você. Ou você ama com tudo que ela é, ou não ama e pára de perturbar a vida dos outros com isso.
Não é amor ocupar todos os espaços da vida da pessoa, querer ir a todos os lugares que o outro frequenta, trabalho, igreja, academia, faculdade e até no banheiro: é controle, é brincar de Big Brother, é querer fiscalizar a vida alheia para seu próprio doentio benefício.
Não é amor quando a pessoa decide sair da sua vida e você implora, tenta convencer, relembra todos os momentos, questiona todas as promessas. Não é amor nem mesmo o que se sofre no fim: dói a decepção, a frustração, dói o apego a idéia de amor, aos planos juntos que foram por água abaixo, dói a mudança de hábito. Tudo isso mata a gente. Mas amor mesmo, não dói. A gente sofre por essas coisas, mas por amor, não. Quem ama, respeita a decisão do outro e segue.
Não é amor querer exclusividade nos interesses do outro: é ilusão, expectativa irrealizável. Amor faz desejar a felicidade do outro e é realista no sentido de reconhecer que somos imperfeitos e jamais seremos tudo que satisfaz a quem amamos. Somos parte, mas nunca tudo. O tudo do outro são seus sonhos, suas vontades, seus amigos, sua família, seus outros afetos, além de nós.
É preciso maturidade pra amar com qualidade. Não se queima etapas na vida.
Só depois de errar, permitir que os outros errem com a gente e decidir pela mudança, é possível aceitar a vida como ela é, os outros como são, e principalmente a si mesmo.
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segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
À moda Maria
*
Maria tinha João e pensava gostar dele. Mas não era suficiente. Maria sentia uma fome insaciável, feroz, que João jamais supriria, ficasse o tempo que fosse a ouvir-lhe os reclames, as histórias, as idéias. Maria precisava de atenção, de qualquer tipo e origem: era uma gula incontrolável. Por isso falava tanto. Achara ali a forma mais fácil de conseguir as pessoas para si: tinham que se calar e olhar pra ela. Então Maria falava. Falava da vida, do tempo, da rua, dos outros, de si mesma, do que lhe desse na telha, pra qualquer um.
Maria tinha João e pensava gostar dele. Dizia aos quatro ventos que jamais o trairia. Jamais! Parecia-lhe absurda a idéia, mesmo sabendo que outros a desejavam. Não tinha culpa alguma do desejo alheio: até gostava e estimulava. Eles jamais a tocariam, mas a atenção que recebia era irresistível. Prendia-os em conversas animadas, sobre qualquer tema que os mantivesse saciando-lhe a sede por carinho. Tanto lhe fazia se o assunto passava um pouco da conta. João não saberia, Maria nada fazia de errado, afinal. Os outros a cercarem, admirarem, elogiarem, lhe satisfazerem, era cabível. Não podiam era pôr a mão. Tudo era possível, se apenas ficasse no campo das idéias, inclusive no dela.
Maria parecia gostar de João, e também de cerveja. João não se incomodava, mas Maria achava que essa imagem não lhe cairia muito bem, então escondia de João suas saidinhas com os amigos. Era melhor que ele, de família conservadora, continuasse achando que ela era bem calminha. Quando João queria beber com alguém, porém, era recriminado: Maria não entendia a incoerência, ele afinal não é um cara conservador?
Algumas coisas que gostava de fazer, decidia não revelar a João. Coisas com as quais não concordava, calava-se para depois fazer do seu jeito, às escondidas, obviamente.
Maria tinha certeza que gostava de João, mas era verborrágica: não podia conter-se. Todos sabiam dos problemas dele; que ele tinha medo do escuro, que ligava pra ela chorando quando estava triste, que quando ardia em ciúmes ficava descontrolado. As mazelas de João, que ele confiara só a ela, Maria não apenas desprezava, mas revelava-as todas para as amigas, para os colegas, para quem se dispusesse a ouvi-la. A um amigo que a rondava com gracejos, Maria deixou que soubesse o quanto João era chato e inseguro. O amigo divertia-se em saber que o homem de Maria era tão vulnerável.
Pobre João, Maria dizia gostar dele. E só ela achava que ele nunca foi traído.
*
Obs.: esse texto é só uma ilustração, Maria é mero instrumento de transmissão de uma idéia, não necessariamente inspirada em alguém ...
Maria tinha João e pensava gostar dele. Mas não era suficiente. Maria sentia uma fome insaciável, feroz, que João jamais supriria, ficasse o tempo que fosse a ouvir-lhe os reclames, as histórias, as idéias. Maria precisava de atenção, de qualquer tipo e origem: era uma gula incontrolável. Por isso falava tanto. Achara ali a forma mais fácil de conseguir as pessoas para si: tinham que se calar e olhar pra ela. Então Maria falava. Falava da vida, do tempo, da rua, dos outros, de si mesma, do que lhe desse na telha, pra qualquer um.
Maria tinha João e pensava gostar dele. Dizia aos quatro ventos que jamais o trairia. Jamais! Parecia-lhe absurda a idéia, mesmo sabendo que outros a desejavam. Não tinha culpa alguma do desejo alheio: até gostava e estimulava. Eles jamais a tocariam, mas a atenção que recebia era irresistível. Prendia-os em conversas animadas, sobre qualquer tema que os mantivesse saciando-lhe a sede por carinho. Tanto lhe fazia se o assunto passava um pouco da conta. João não saberia, Maria nada fazia de errado, afinal. Os outros a cercarem, admirarem, elogiarem, lhe satisfazerem, era cabível. Não podiam era pôr a mão. Tudo era possível, se apenas ficasse no campo das idéias, inclusive no dela.
Maria parecia gostar de João, e também de cerveja. João não se incomodava, mas Maria achava que essa imagem não lhe cairia muito bem, então escondia de João suas saidinhas com os amigos. Era melhor que ele, de família conservadora, continuasse achando que ela era bem calminha. Quando João queria beber com alguém, porém, era recriminado: Maria não entendia a incoerência, ele afinal não é um cara conservador?
Algumas coisas que gostava de fazer, decidia não revelar a João. Coisas com as quais não concordava, calava-se para depois fazer do seu jeito, às escondidas, obviamente.
Maria tinha certeza que gostava de João, mas era verborrágica: não podia conter-se. Todos sabiam dos problemas dele; que ele tinha medo do escuro, que ligava pra ela chorando quando estava triste, que quando ardia em ciúmes ficava descontrolado. As mazelas de João, que ele confiara só a ela, Maria não apenas desprezava, mas revelava-as todas para as amigas, para os colegas, para quem se dispusesse a ouvi-la. A um amigo que a rondava com gracejos, Maria deixou que soubesse o quanto João era chato e inseguro. O amigo divertia-se em saber que o homem de Maria era tão vulnerável.
Pobre João, Maria dizia gostar dele. E só ela achava que ele nunca foi traído.
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Obs.: esse texto é só uma ilustração, Maria é mero instrumento de transmissão de uma idéia, não necessariamente inspirada em alguém ...
domingo, 4 de dezembro de 2011
Desejo de não sentir
*
Se não estou enganada, começou com Schopenhauer, que bebeu nas fontes do budismo: "a dor vem do desejo de não sentir dor". Renato Russo cantou, Freud ampliou, Nietzche se inspirou...
Existir dói e a felicidade é apenas um alívio à permanente angústia do ser. Pessimista, não? Mas até mesmo Vinícius de Moraes, que tantas vezes casou-se na busca cega pela felicidade, cantou: " ... a hora do sim é um descuido do não."
Pelo pouco que sei da filosofia budista, a felicidade plena estaria na total aniquilação da vontade. Ora, se a vontade é das molas propulsoras da vida, o sossego estaria fora dela? Pode parecer estranho o que vou dizer, mas o pensamento cristão primitivo também era de que a satisfação total não está neste plano de existência.
Acontece que hoje em dia idéias desse tipo não fazem qualquer sentido. É preciso aliviar as tensões, fugir dos conflitos, abstrair. Assumir sofrimento tornou-se fraqueza, e perder tempo com isso, mais ainda. Anestesiar é a regra, burlar o enfrentamento através do consumismo, da ostentação, da vida de aparências, da busca por status, reconhecimento, comprovação. Antidepressivos e ansiolíticos são mais vendidos nas farmácias que remédios para dor de cabeça. Esconde-se a insatisfação, como se não fosse parte (e grande) desse caminho - já cantava Renato: "o caminho é um só", e nele estarão, invariavelmente, as contingências da vida.
O fato é que essa evitação só aumenta a angústia do ser. Esse jogo de esconde-esconde consigo mesmo, dificilmente acaba bem: em algum momento, as forças reprimidas pra debaixo do tapete, clamam.
Vive melhor quem melhor entende que há momento de chorar, bem como há o de regozijar-se - assim dizia o sábio autor do livro de Eclesiastes. E os dois momentos precisam ser vividos na totalidade e com eles é necessário tirar lições. Não adianta espernear diante dos fatos. Muito menos negar-se às obrigações impostas pela vida, tanto fingindo que não existem, quanto lamentando-se: há que ser forte e viver o que há por aqui com dignidade. Só colhe quem planta, só acerta quem aprende com os erros, só se cura quem expõe a ferida, engole os remédios amargos e aguarda o tempo de regenerar e florescer. Viver não é só aventurar-se a todo tempo, nem apenas preservar-se: viver é também aceitar de uma vez por todas que raramente a vida é uma festa. Mas está cheia de boas surpresas que se revelam pra quem se atreve a abrir os olhos.
*
Se não estou enganada, começou com Schopenhauer, que bebeu nas fontes do budismo: "a dor vem do desejo de não sentir dor". Renato Russo cantou, Freud ampliou, Nietzche se inspirou...
Existir dói e a felicidade é apenas um alívio à permanente angústia do ser. Pessimista, não? Mas até mesmo Vinícius de Moraes, que tantas vezes casou-se na busca cega pela felicidade, cantou: " ... a hora do sim é um descuido do não."
Pelo pouco que sei da filosofia budista, a felicidade plena estaria na total aniquilação da vontade. Ora, se a vontade é das molas propulsoras da vida, o sossego estaria fora dela? Pode parecer estranho o que vou dizer, mas o pensamento cristão primitivo também era de que a satisfação total não está neste plano de existência.
Acontece que hoje em dia idéias desse tipo não fazem qualquer sentido. É preciso aliviar as tensões, fugir dos conflitos, abstrair. Assumir sofrimento tornou-se fraqueza, e perder tempo com isso, mais ainda. Anestesiar é a regra, burlar o enfrentamento através do consumismo, da ostentação, da vida de aparências, da busca por status, reconhecimento, comprovação. Antidepressivos e ansiolíticos são mais vendidos nas farmácias que remédios para dor de cabeça. Esconde-se a insatisfação, como se não fosse parte (e grande) desse caminho - já cantava Renato: "o caminho é um só", e nele estarão, invariavelmente, as contingências da vida.
O fato é que essa evitação só aumenta a angústia do ser. Esse jogo de esconde-esconde consigo mesmo, dificilmente acaba bem: em algum momento, as forças reprimidas pra debaixo do tapete, clamam.
Vive melhor quem melhor entende que há momento de chorar, bem como há o de regozijar-se - assim dizia o sábio autor do livro de Eclesiastes. E os dois momentos precisam ser vividos na totalidade e com eles é necessário tirar lições. Não adianta espernear diante dos fatos. Muito menos negar-se às obrigações impostas pela vida, tanto fingindo que não existem, quanto lamentando-se: há que ser forte e viver o que há por aqui com dignidade. Só colhe quem planta, só acerta quem aprende com os erros, só se cura quem expõe a ferida, engole os remédios amargos e aguarda o tempo de regenerar e florescer. Viver não é só aventurar-se a todo tempo, nem apenas preservar-se: viver é também aceitar de uma vez por todas que raramente a vida é uma festa. Mas está cheia de boas surpresas que se revelam pra quem se atreve a abrir os olhos.
*
Humildade é pra quem se banca
*
Todo mundo acha que uma pessoa dita orgulhosa tem muito amor próprio. Todo mundo associa orgulho com altivez, arrogância. Ou então com a necessidade de ostentar seus troféus: um filho que se formou, a casa nova que construiu, a beleza, o intelecto, o namorado novo, o diploma, enfim, as conquistas. Orgulho também pode ser associado com a incapacidade de perdoar, ou assumir seus erros: "Fulano não esquece o mal que lhe fazem", "Esse nunca vai assumir que errou, é muito orgulhoso", e assim por diante.
Ninguém pensa que orgulho essencialmente está relacionado à necessidade de um "feedback" dos outros. Já parou pra pensar? Se orgulho é ostentar-se, é necessário que os outros reconheçam o valor do que se exibe. Se orgulho está relacionado com a incapacidade de perdoar, é preciso que o ofensor seja "punido" pelo mal que causou. E se tem a ver com a dificuldade de assumir os erros, demonstra o receio de parecer frágil ou inferior.
Desse modo, o orgulhoso excessivo é um sujeito que precisa por demais dos outros e da aceitação alheia. Precisa que as pessoas validem (valorizem) o que é, para garantir e certificar-se disso. É como se simplesmente reconhecer o próprio valor não fosse suficiente. O orgulhoso carece de si mesmo, não tem certeza de sua própria perspectiva, não está seguro do seu julgamento: depende dos demais.
Quem se garante até gosta de ser admirado por suas virtudes, suas conquistas, mas não precisa disso pra viver. Assume seus erros por estar certo de que não é melhor nem pior que qualquer outro ser humano. Confia em sua avaliação e procura aprimorar-se para viver cada vez mais em paz com seus próprios valores. Está aberto às críticas. Quem se garante sabe perdoar, por que assume que todos estão no mundo buscando suas próprias satisfações, sobrevivendo às dores da existência: às vezes errando, às vezes acertando. Quem se garante também se ofende, mas não precisa que os outros reconheçam seus erros, não depende da mudança do ponto de vista alheio para ter certeza absoluta naquilo em que acredita ser a atitude correta.
Orgulho é falta de confiança em si mesmo. É falta de recursos. É carência.
*
Todo mundo acha que uma pessoa dita orgulhosa tem muito amor próprio. Todo mundo associa orgulho com altivez, arrogância. Ou então com a necessidade de ostentar seus troféus: um filho que se formou, a casa nova que construiu, a beleza, o intelecto, o namorado novo, o diploma, enfim, as conquistas. Orgulho também pode ser associado com a incapacidade de perdoar, ou assumir seus erros: "Fulano não esquece o mal que lhe fazem", "Esse nunca vai assumir que errou, é muito orgulhoso", e assim por diante.
Ninguém pensa que orgulho essencialmente está relacionado à necessidade de um "feedback" dos outros. Já parou pra pensar? Se orgulho é ostentar-se, é necessário que os outros reconheçam o valor do que se exibe. Se orgulho está relacionado com a incapacidade de perdoar, é preciso que o ofensor seja "punido" pelo mal que causou. E se tem a ver com a dificuldade de assumir os erros, demonstra o receio de parecer frágil ou inferior.
Desse modo, o orgulhoso excessivo é um sujeito que precisa por demais dos outros e da aceitação alheia. Precisa que as pessoas validem (valorizem) o que é, para garantir e certificar-se disso. É como se simplesmente reconhecer o próprio valor não fosse suficiente. O orgulhoso carece de si mesmo, não tem certeza de sua própria perspectiva, não está seguro do seu julgamento: depende dos demais.
Quem se garante até gosta de ser admirado por suas virtudes, suas conquistas, mas não precisa disso pra viver. Assume seus erros por estar certo de que não é melhor nem pior que qualquer outro ser humano. Confia em sua avaliação e procura aprimorar-se para viver cada vez mais em paz com seus próprios valores. Está aberto às críticas. Quem se garante sabe perdoar, por que assume que todos estão no mundo buscando suas próprias satisfações, sobrevivendo às dores da existência: às vezes errando, às vezes acertando. Quem se garante também se ofende, mas não precisa que os outros reconheçam seus erros, não depende da mudança do ponto de vista alheio para ter certeza absoluta naquilo em que acredita ser a atitude correta.
Orgulho é falta de confiança em si mesmo. É falta de recursos. É carência.
*
Do que não se pode mudar
*
As pessoas sempre nos verão de acordo com os próprios padrões: suas vivências e necessidades. Nada há que se possa fazer a respeito, a não ser, aceitar. É da vida: cada um vê como quer, como precisa, como aguenta, como aprendeu. E a gente não pode seguir preocupado com isso. Está fora do controle a interpretação que os outros farão das nossas ações, reações, ou palavras que proferimos. Seremos sempre julgados nos tribunais de cada um e por vezes, sem direito à defesa, do mesmo modo que estamos a todo tempo julgando os demais.
Daí que um bom remédio pra essa tendência quase incontrolável de tentar mudar ou moldar a opinião alheia, é termos muito firme nossa própria idéia do que somos. Se estivermos em paz com a vida que escolhemos levar, tendo nossos julgamentos de acordo com os atos, se conhecermos bem as fraquezas, os limites, aquilo que nos desespera e nos agride e praticarmos um auto-respeito, cuidando bem da gente, ficaremos livre dos outros, e os libertaremos também.
Não dá pra viver tentando provar pra alguém o quanto somos bons ou maus, espertos ou inteligentes, bonitos ou vitoriosos. Não dá pra buscar aplauso ou reconhecimento o tempo todo. É preciso simplesmente saber, lá dentro, que somos comuns a todos os homens em muitas coisas, mas algumas, por menores que sejam, nos diferenciam dos demais a ponto de fazer-nos únicos.
*
As pessoas sempre nos verão de acordo com os próprios padrões: suas vivências e necessidades. Nada há que se possa fazer a respeito, a não ser, aceitar. É da vida: cada um vê como quer, como precisa, como aguenta, como aprendeu. E a gente não pode seguir preocupado com isso. Está fora do controle a interpretação que os outros farão das nossas ações, reações, ou palavras que proferimos. Seremos sempre julgados nos tribunais de cada um e por vezes, sem direito à defesa, do mesmo modo que estamos a todo tempo julgando os demais.
Daí que um bom remédio pra essa tendência quase incontrolável de tentar mudar ou moldar a opinião alheia, é termos muito firme nossa própria idéia do que somos. Se estivermos em paz com a vida que escolhemos levar, tendo nossos julgamentos de acordo com os atos, se conhecermos bem as fraquezas, os limites, aquilo que nos desespera e nos agride e praticarmos um auto-respeito, cuidando bem da gente, ficaremos livre dos outros, e os libertaremos também.
Não dá pra viver tentando provar pra alguém o quanto somos bons ou maus, espertos ou inteligentes, bonitos ou vitoriosos. Não dá pra buscar aplauso ou reconhecimento o tempo todo. É preciso simplesmente saber, lá dentro, que somos comuns a todos os homens em muitas coisas, mas algumas, por menores que sejam, nos diferenciam dos demais a ponto de fazer-nos únicos.
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sexta-feira, 15 de julho de 2011
Criança cansa
*
É admirável a forma como funciona a natureza. Ela impôe ritmos e algumas certezas à vida, principalmente em se tratando de aprendizado, crescimento, evolução. A gente vê isso no bebê. É a coisa mais fofa, toda mãe sabe o quanto é prazeroso estar com um bebêzinho e o quanto recompensa com seus primeiros gestos. Cada conquista é curtida com alegria. Mas a verdade é que todos desejam que a criança se desenvolva.
Por que criança cansa!
É um ser muito dependente da mãe. E por melhores que sejam as experiências e o ganho de tê-la, cuidá-la e ensiná-la, suga as energias de quem dela cuida, exige dedicação extrema. Não por acaso, com o passar do tempo, a criança começa a ter curiosidade pelo mundo que a cerca, esquece um pouco o peito da mãe. É compelida por instinto a buscar formas de se locomover, aprender a andar e ganhar autonomia. Pais e filhos desejam essa evolução. Ao mesmo tempo em que temem perder-se, soltar as mãos, algo inconsciente empurra todos os envolvidos para a libertação.
Nós também precisamos permitir que evoluam aqueles que convivem conosco. Quando alguém cria uma relação de extrema dependência para conosco, garantimos assim total controle. Contudo, submetemo-nos a um fardo, que cedo ou tarde não suportaremos carregar. Pode parecer, no começo, prazerosa a sensação de que somos responsáveis por alguém, necessários e por consequência amados. Mas o tempo sempre nos prova que o esforço é maior que a recompensa. É preciso soltar, liberar e estimular quem supostamente amamos, para que faça suas escolhas por conta própria, quebre a cabeça e aprenda nos seus tempos, para que esteja conosco inteiramente e não apenas por necessidade, medo ou comodidade.
O contrário também é verdadeiro: seria ótimo viver para sempre como criança, recebendo cuidado, atenção e aplausos dos adultos, divertindo-se, fantasiando e deixando toda a responsabilidade da existência sobre os ombros de outro. Só que ninguém aguenta viver assim: a vida clama por evolução. É preciso realizar, desenvolver os potenciais, aprender, descobrir, crescer e passar adiante. Quem nega o chamado da Vida, submete-se a uma subsistência em que outros serão sempre os culpados pelo que não realizou, pelo vazio ou pelo tédio dos dias.
Assumamos as rédeas, tomemos os remos, sejamos gratos pela oportunidade de explorar o mundo do qual somos parte e que trazemos conosco. Libertemos os outros, deixemos que vivam suas experiências, estejamos dispostos a ajudar quando solicitados. Caminhemos juntos, ajudando e recebendo ajuda, trocando experiências, mas nunca sendo arrastados ou carregados como anexos, sem desejos, sem coragem. Nunca algemando para que sigam conosco.
*
É admirável a forma como funciona a natureza. Ela impôe ritmos e algumas certezas à vida, principalmente em se tratando de aprendizado, crescimento, evolução. A gente vê isso no bebê. É a coisa mais fofa, toda mãe sabe o quanto é prazeroso estar com um bebêzinho e o quanto recompensa com seus primeiros gestos. Cada conquista é curtida com alegria. Mas a verdade é que todos desejam que a criança se desenvolva.
Por que criança cansa!
É um ser muito dependente da mãe. E por melhores que sejam as experiências e o ganho de tê-la, cuidá-la e ensiná-la, suga as energias de quem dela cuida, exige dedicação extrema. Não por acaso, com o passar do tempo, a criança começa a ter curiosidade pelo mundo que a cerca, esquece um pouco o peito da mãe. É compelida por instinto a buscar formas de se locomover, aprender a andar e ganhar autonomia. Pais e filhos desejam essa evolução. Ao mesmo tempo em que temem perder-se, soltar as mãos, algo inconsciente empurra todos os envolvidos para a libertação.
Nós também precisamos permitir que evoluam aqueles que convivem conosco. Quando alguém cria uma relação de extrema dependência para conosco, garantimos assim total controle. Contudo, submetemo-nos a um fardo, que cedo ou tarde não suportaremos carregar. Pode parecer, no começo, prazerosa a sensação de que somos responsáveis por alguém, necessários e por consequência amados. Mas o tempo sempre nos prova que o esforço é maior que a recompensa. É preciso soltar, liberar e estimular quem supostamente amamos, para que faça suas escolhas por conta própria, quebre a cabeça e aprenda nos seus tempos, para que esteja conosco inteiramente e não apenas por necessidade, medo ou comodidade.
O contrário também é verdadeiro: seria ótimo viver para sempre como criança, recebendo cuidado, atenção e aplausos dos adultos, divertindo-se, fantasiando e deixando toda a responsabilidade da existência sobre os ombros de outro. Só que ninguém aguenta viver assim: a vida clama por evolução. É preciso realizar, desenvolver os potenciais, aprender, descobrir, crescer e passar adiante. Quem nega o chamado da Vida, submete-se a uma subsistência em que outros serão sempre os culpados pelo que não realizou, pelo vazio ou pelo tédio dos dias.
Assumamos as rédeas, tomemos os remos, sejamos gratos pela oportunidade de explorar o mundo do qual somos parte e que trazemos conosco. Libertemos os outros, deixemos que vivam suas experiências, estejamos dispostos a ajudar quando solicitados. Caminhemos juntos, ajudando e recebendo ajuda, trocando experiências, mas nunca sendo arrastados ou carregados como anexos, sem desejos, sem coragem. Nunca algemando para que sigam conosco.
*
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Estão todos bem
*
Um filme que me fez pensar.
É uma releitura do "Estamos todos bem", com Marcello Mastroianni, co-produção Itália/França, de 1990, do diretor Giuseppe Tornatore. Dizem que menos sutil e poético que o original.
Contudo, a interpretação de Robert de Niro deixou-me bem satisfeita. É a história de um pai que resolve ir ao encontro dos filhos, após a morte da esposa. Cada um dos quatro filhos mora numa cidade diferente e o filme começa com o pai apresentando ao expectador sua cria, enfatizando a profissão de cada um e o quanto trabalhou para que chegassem onde chegaram. Ao longo da viagem, vamos percebendo junto com o protagonista que as coisas nunca foram como dizia sua esposa. Os filhos não se tornaram exatamente o que ele gostaria (e de certa forma exigia) e o pior: continuavam a todo custo maquiando as coisas, bancando para o pai aquilo que não eram. Com exceção de um dos filhos, o percusionista de uma orquestra que o pai pensava ser o regente. Para mim, o melhor diálogo do filme. Um filho que não tem medo de mostrar-se como realmente é, e mais: está em pleno acordo consigo mesmo quanto a isso. Sofre pela decepção que causa no pai, mesmo assim, mantém-se firme na decisão de ser honesto.
Das frases que mais gostei, foi a dita por uma das filhas, ante a insistência do pai em saber a verdade: "O senhor não vai aguentar". Isso resume a história. E é daqui que começo a divagar.
Nossa reação diante da decepção que alguém nos causa envia-lhe uma mensagem. Quando alguém da nossa intimidade não se comporta como gostaríamos e reagimos mal a isso, a pessoa tende a se fechar, ou se esconder, ou fingir e pode passar a mascarar-se na intenção de evitar problemas para si e para nós. Quando reagimos como crianças birrentas diante de uma incapacidade do outro, a mensagem que enviamos é a seguinte: "Sou fraco para aguentar a verdade, não posso aceitar as coisas como elas são. Ou você muda ou faz de conta que consegue e eu finjo que acredito."
Parece simplista, mas é assim. O verdadeiro forte é aquele que encara a realidade: as pessoas têm seus limites e pronto, não passam dali. As pessoas não conseguem acertar e ponto. As pessoas precisam da nossa ajuda e compreensão e pronto, sem essa de gritar e espernear e tentar mudar alguém na marra. O forte do filme era a mãe, que morreu. Para ela, todos ligavam e dividiam as dificuldades. Ela gerenciava como podia e filtrava o que chegava ao pai exigente, radical, inflexível.
O filme todo é uma descoberta e auto-descoberta do pai e também um esforço sobre-humano para absorver as contingências e para tentar ajudar os filhos e amá-los como são, apesar do que são.
Seremos fortes, ou fecharemos os olhos e viveremos uma vida de ilusão e egoísmo?
As pessoas que nos amam estão tendo o direito de ser o que são ou sendo levadas a enganar-nos?
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Um filme que me fez pensar.
É uma releitura do "Estamos todos bem", com Marcello Mastroianni, co-produção Itália/França, de 1990, do diretor Giuseppe Tornatore. Dizem que menos sutil e poético que o original.
Contudo, a interpretação de Robert de Niro deixou-me bem satisfeita. É a história de um pai que resolve ir ao encontro dos filhos, após a morte da esposa. Cada um dos quatro filhos mora numa cidade diferente e o filme começa com o pai apresentando ao expectador sua cria, enfatizando a profissão de cada um e o quanto trabalhou para que chegassem onde chegaram. Ao longo da viagem, vamos percebendo junto com o protagonista que as coisas nunca foram como dizia sua esposa. Os filhos não se tornaram exatamente o que ele gostaria (e de certa forma exigia) e o pior: continuavam a todo custo maquiando as coisas, bancando para o pai aquilo que não eram. Com exceção de um dos filhos, o percusionista de uma orquestra que o pai pensava ser o regente. Para mim, o melhor diálogo do filme. Um filho que não tem medo de mostrar-se como realmente é, e mais: está em pleno acordo consigo mesmo quanto a isso. Sofre pela decepção que causa no pai, mesmo assim, mantém-se firme na decisão de ser honesto.
Das frases que mais gostei, foi a dita por uma das filhas, ante a insistência do pai em saber a verdade: "O senhor não vai aguentar". Isso resume a história. E é daqui que começo a divagar.
Nossa reação diante da decepção que alguém nos causa envia-lhe uma mensagem. Quando alguém da nossa intimidade não se comporta como gostaríamos e reagimos mal a isso, a pessoa tende a se fechar, ou se esconder, ou fingir e pode passar a mascarar-se na intenção de evitar problemas para si e para nós. Quando reagimos como crianças birrentas diante de uma incapacidade do outro, a mensagem que enviamos é a seguinte: "Sou fraco para aguentar a verdade, não posso aceitar as coisas como elas são. Ou você muda ou faz de conta que consegue e eu finjo que acredito."
Parece simplista, mas é assim. O verdadeiro forte é aquele que encara a realidade: as pessoas têm seus limites e pronto, não passam dali. As pessoas não conseguem acertar e ponto. As pessoas precisam da nossa ajuda e compreensão e pronto, sem essa de gritar e espernear e tentar mudar alguém na marra. O forte do filme era a mãe, que morreu. Para ela, todos ligavam e dividiam as dificuldades. Ela gerenciava como podia e filtrava o que chegava ao pai exigente, radical, inflexível.
O filme todo é uma descoberta e auto-descoberta do pai e também um esforço sobre-humano para absorver as contingências e para tentar ajudar os filhos e amá-los como são, apesar do que são.
Seremos fortes, ou fecharemos os olhos e viveremos uma vida de ilusão e egoísmo?
As pessoas que nos amam estão tendo o direito de ser o que são ou sendo levadas a enganar-nos?
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terça-feira, 5 de julho de 2011
Sobre a auto-afirmação masculina
*
Os homens sentem-se mais confortáveis com mulheres em situação social, intelectual, emocional, profissional ou financeira inferior.
Ok. Primeiro, por favor, liberte-se agora mesmo do sentido mais pejorativo da palavra inferior. Pode sim significar menor, irrelevante. Mas neste texto, não é este o sentido que pretendo dar. Inferior aqui é tão somente "abaixo de". Não menos importante, nem desprovido de valor, ou na estaca zero de qualquer processo de aprimoramento, conquista e etc. É simplesmente abaixo, alguém que não alcançou o mesmo nível em relação a outro. Conseguiu entender-me? Se sim, podemos continuar. Se não, releia o parágrafo com um pouco mais de boa vontade. rs
Agora repito: os homens sentem-se mais confortáveis com mulheres em situação social, intelectual, emocional, profissional e/ou financeira inferior. Não necessariamente em tudo isto, acrescento.
Eu posso tentar argumentar usando as teorias evolucionistas sobre a questão do macho provedor, líder, mais forte, mas isso já está ficando cansativo. Toda gente sabe que é assim que funciona: homem reforça seu ego olhando para um ser mais frágil e dependente ao seu lado e ao comparar-se com ela pode concluir que é poderoso, admirado e necessário. A maioria dos homens gosta disso e aqui encontro um paradoxo: as mulheres da modernidade não apenas assustam ou afugentam seus pares, como também não conseguem lidar com isso. Por que ao mesmo tempo que tornaram-se independentes e auto-suficientes em suas rotinas e se orgulham disso, querem um homem para admirar, em quem confiem pra ajudar a cuidar das coisas. E que me matem as feministas, querem sim, homem que as subjugue (de vez em quando, tá?) rs.
O caso é que ainda que os homens mais atualizados e bem resolvidos acabem estabelecendo um relacionamento estável com mulheres em mesmo nível ou acima, cedo ou tarde sentirão falta dessa auto-afirmação.
Antes que alguém venha me dizer que toda generalização é burra, adianto-me: estou falando da maioria. Além disso, sentir falta não é agir. E posso ir um pouco além e dizer que há mulheres também, que precisam de homens que lhe garantam a auto-estima dessa mesma forma. No que se sentem superiores ante o parceiro, resolvem seu próprio problema.
Estar com alguém que admiramos, que seja melhor em alguma coisa, que surpreenda nas coisas que valorizamos (seja lá o que for, há gosto pra tudo), talvez seja a solução. Afinal, todos queremos ser admirados, mas também queremos ter o que aprender, ou do que nos orgulhar em nosso par.
Que haja alguém que fale a mesma língua, de preferência naquilo que mais nos importe, alguém por quem sejamos estimulados a crescer - não por sugestão do outro, mas por desejo próprio. Alguém de quem precisemos, de alguma forma. Que traga equilíbrio naquilo que nos falta, pois todo mundo precisa de gente (e quem parece não precisar costuma ser artificial, forçado).
Contudo, geralmente mais do que a mulher, o homem é inseguro, precisa de uma admiradora incondicional, que confia nos seus julgamentos, que o respeita nas considerações que faz. Por outro motivo, é preciso que seja assim: não adianta o cara ser legal, bonzinho e satisfazer as carências afetivas da mulher, se não tem para ela outros significados relevantes e portanto, não se sente forte, seguro pra conduzí-la, ou que é levado a sério na hora das decisões. Ambos parecem precisar desse estado de coisas.
Seja como for, custe o que custar, há que ser autêntico e respeitar-se: sem essa de fingir que curte uma coisa que não faz a menor diferença para você. Uma hora alguém cansa.
Se não um de tédio, o outro arruma um fã clandestino...
*
(e que atire a primeira carta de amor piegas quem nunca ficou teorizando sobre as diferenças entre os gêneros). rsrsrs
Os homens sentem-se mais confortáveis com mulheres em situação social, intelectual, emocional, profissional ou financeira inferior.
Ok. Primeiro, por favor, liberte-se agora mesmo do sentido mais pejorativo da palavra inferior. Pode sim significar menor, irrelevante. Mas neste texto, não é este o sentido que pretendo dar. Inferior aqui é tão somente "abaixo de". Não menos importante, nem desprovido de valor, ou na estaca zero de qualquer processo de aprimoramento, conquista e etc. É simplesmente abaixo, alguém que não alcançou o mesmo nível em relação a outro. Conseguiu entender-me? Se sim, podemos continuar. Se não, releia o parágrafo com um pouco mais de boa vontade. rs
Agora repito: os homens sentem-se mais confortáveis com mulheres em situação social, intelectual, emocional, profissional e/ou financeira inferior. Não necessariamente em tudo isto, acrescento.
Eu posso tentar argumentar usando as teorias evolucionistas sobre a questão do macho provedor, líder, mais forte, mas isso já está ficando cansativo. Toda gente sabe que é assim que funciona: homem reforça seu ego olhando para um ser mais frágil e dependente ao seu lado e ao comparar-se com ela pode concluir que é poderoso, admirado e necessário. A maioria dos homens gosta disso e aqui encontro um paradoxo: as mulheres da modernidade não apenas assustam ou afugentam seus pares, como também não conseguem lidar com isso. Por que ao mesmo tempo que tornaram-se independentes e auto-suficientes em suas rotinas e se orgulham disso, querem um homem para admirar, em quem confiem pra ajudar a cuidar das coisas. E que me matem as feministas, querem sim, homem que as subjugue (de vez em quando, tá?) rs.
O caso é que ainda que os homens mais atualizados e bem resolvidos acabem estabelecendo um relacionamento estável com mulheres em mesmo nível ou acima, cedo ou tarde sentirão falta dessa auto-afirmação.
Antes que alguém venha me dizer que toda generalização é burra, adianto-me: estou falando da maioria. Além disso, sentir falta não é agir. E posso ir um pouco além e dizer que há mulheres também, que precisam de homens que lhe garantam a auto-estima dessa mesma forma. No que se sentem superiores ante o parceiro, resolvem seu próprio problema.
Estar com alguém que admiramos, que seja melhor em alguma coisa, que surpreenda nas coisas que valorizamos (seja lá o que for, há gosto pra tudo), talvez seja a solução. Afinal, todos queremos ser admirados, mas também queremos ter o que aprender, ou do que nos orgulhar em nosso par.
Que haja alguém que fale a mesma língua, de preferência naquilo que mais nos importe, alguém por quem sejamos estimulados a crescer - não por sugestão do outro, mas por desejo próprio. Alguém de quem precisemos, de alguma forma. Que traga equilíbrio naquilo que nos falta, pois todo mundo precisa de gente (e quem parece não precisar costuma ser artificial, forçado).
Contudo, geralmente mais do que a mulher, o homem é inseguro, precisa de uma admiradora incondicional, que confia nos seus julgamentos, que o respeita nas considerações que faz. Por outro motivo, é preciso que seja assim: não adianta o cara ser legal, bonzinho e satisfazer as carências afetivas da mulher, se não tem para ela outros significados relevantes e portanto, não se sente forte, seguro pra conduzí-la, ou que é levado a sério na hora das decisões. Ambos parecem precisar desse estado de coisas.
Seja como for, custe o que custar, há que ser autêntico e respeitar-se: sem essa de fingir que curte uma coisa que não faz a menor diferença para você. Uma hora alguém cansa.
Se não um de tédio, o outro arruma um fã clandestino...
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(e que atire a primeira carta de amor piegas quem nunca ficou teorizando sobre as diferenças entre os gêneros). rsrsrs
terça-feira, 28 de junho de 2011
Cabral, seu azarado ...
*
Desconfio que ele já tenha sido um cara legal, bem intencionado, no começo de sua carreira política. Já li e ouvi depoimentos de suas boas práticas lá atrás.
Mas há tempos, o governador do Rio é só mais um deslumbrado no meio do mar de lama da política nacional, seduzido pela infinidade de vantagens advindas de seu cargo, autoridade, poder concedidos pelo povo que o escolheu. Se tem alguém ainda escandalizado com as estranhas - pra dizer o mínimo - relações com empresários que seu governo contratou, ou com as isenções fiscais que favoreceram até seu cabeleireiro (coisa de R$ 300.000,00, dizem as más línguas da imprensa), está assustado pelo motivo errado. Susto seria encontrar um homem com tanto poder nas mãos que não acabasse por beneficiar-se com isso, num país em que tal cultura é mais forte que qualquer boa intenção.
Não duvido que seus antecessores tenham feito todo tipo de transação parecida ou pior, e assim o devem fazer também aqueles que sucederem Cabral. Pode parecer pessimista, mas é pura constatação dos fatos, não apenas no Rio, não apenas entre governadores ou autoridades federais. É o sistema, e rola em todas as esferas da nossa sociedade, e não é de hoje, e faz tempo.
Poderia, mas não pretendo discutir agora possíveis soluções pra esse ciclo vicioso.
O que me intriga mesmo é a má sorte do nosso atual governador: chega a parecer mandinga! rs
Sempre o achei "um tanto quanto eufórico demais", principalmente após assistir um vídeo em que se deixou filmar alcoolizado, agarrado a uma candidata Dilma visivelmente constrangida. Parecia-me que aquele seu jeitão emocionado, precipitado, falante - e falando alto, um dia poderia levá-lo a enfiar os pés pelas mãos. Mas pensa comigo: com tanta negociata rolando por aí nesse país e até no mundo (agora enquanto escrevo, ou agora enquanto você lê), tinha que ser com ele, justo na vez dele que ocorreria tamanha tragédia, ceifando vidas e revelando o que todo mundo já sabia, mas fazia que não via por hábito, comodismo ou acordos com a imprensa?
Diante da comoção e da gravidade do fato, não dá pra fazer de conta que não aconteceu.
Noblat (do jornal O Globo) publicou em sua coluna perguntas difíceis de responder com sinceridade: daí a gente tira que ou a rainha da imprensa já mudou de lado, ou Noblat vai ter que trocar de emprego.
Dilma hoje saiu em defesa do governador que a apoiou.
Já eu, se presidenta fosse, desistiria do azarão.
Por que até pra fazer o que todo mundo faz e quase ninguém reclama, como negligenciar a saúde, educação, segurança, esquecer os problemas de infra-estrutura das cidades, desvalorizar profissionais que servem a população e favorecer bilionários, tem que ter alguma sorte e um pouco mais de discrição.
*
Desconfio que ele já tenha sido um cara legal, bem intencionado, no começo de sua carreira política. Já li e ouvi depoimentos de suas boas práticas lá atrás.
Mas há tempos, o governador do Rio é só mais um deslumbrado no meio do mar de lama da política nacional, seduzido pela infinidade de vantagens advindas de seu cargo, autoridade, poder concedidos pelo povo que o escolheu. Se tem alguém ainda escandalizado com as estranhas - pra dizer o mínimo - relações com empresários que seu governo contratou, ou com as isenções fiscais que favoreceram até seu cabeleireiro (coisa de R$ 300.000,00, dizem as más línguas da imprensa), está assustado pelo motivo errado. Susto seria encontrar um homem com tanto poder nas mãos que não acabasse por beneficiar-se com isso, num país em que tal cultura é mais forte que qualquer boa intenção.
Não duvido que seus antecessores tenham feito todo tipo de transação parecida ou pior, e assim o devem fazer também aqueles que sucederem Cabral. Pode parecer pessimista, mas é pura constatação dos fatos, não apenas no Rio, não apenas entre governadores ou autoridades federais. É o sistema, e rola em todas as esferas da nossa sociedade, e não é de hoje, e faz tempo.
Poderia, mas não pretendo discutir agora possíveis soluções pra esse ciclo vicioso.
O que me intriga mesmo é a má sorte do nosso atual governador: chega a parecer mandinga! rs
Sempre o achei "um tanto quanto eufórico demais", principalmente após assistir um vídeo em que se deixou filmar alcoolizado, agarrado a uma candidata Dilma visivelmente constrangida. Parecia-me que aquele seu jeitão emocionado, precipitado, falante - e falando alto, um dia poderia levá-lo a enfiar os pés pelas mãos. Mas pensa comigo: com tanta negociata rolando por aí nesse país e até no mundo (agora enquanto escrevo, ou agora enquanto você lê), tinha que ser com ele, justo na vez dele que ocorreria tamanha tragédia, ceifando vidas e revelando o que todo mundo já sabia, mas fazia que não via por hábito, comodismo ou acordos com a imprensa?
Diante da comoção e da gravidade do fato, não dá pra fazer de conta que não aconteceu.
Noblat (do jornal O Globo) publicou em sua coluna perguntas difíceis de responder com sinceridade: daí a gente tira que ou a rainha da imprensa já mudou de lado, ou Noblat vai ter que trocar de emprego.
Dilma hoje saiu em defesa do governador que a apoiou.
Já eu, se presidenta fosse, desistiria do azarão.
Por que até pra fazer o que todo mundo faz e quase ninguém reclama, como negligenciar a saúde, educação, segurança, esquecer os problemas de infra-estrutura das cidades, desvalorizar profissionais que servem a população e favorecer bilionários, tem que ter alguma sorte e um pouco mais de discrição.
*
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Qual é o problema do Sigilo?
*
Problema nenhum, ora bolas!
O problema não está no sigilo. O problema está na imprensa irresponsável, incompetente. O problema é a desinformação, o problema é a política!
Todo mundo deve ter ouvido em algum momento falar sobre o tal sigilo sobre os custos das obras para a Copa e os Jogos. Foi assim que você ouviu ou leu? Sigilo sobre os custos das obras?
Então, eu e você ouvimos bobagem. E fico estarrecida com o monte de besteiras que se veicula por aí: até no GNT ouvi umas mulheres desocupadas discutindo isso: "vamos ficar sem saber o que estão fazendo com o dinheiro público!" Mas como ando às voltas com a Lei de Licitações (e depois de agosto mais ainda ... rs), tenho uma coisa pra contar: o sigilo não é sobre os custos das obras.
O sigilo de que tanto falam, vem de uma tentativa de melhorar o que não funciona bem e engessa os processos licitatórios no Brasil: pra se ter uma idéia, se nenhuma empresa concorrente ficar entrando com recursos, uma concorrência pode gastar seis meses da história do mundo. Eu até poderia parar por aqui e começar a reclamar que isso de criar um novo Regime não é solução. Que solução é refazer a Lei, ou jogá-la fora e começar outra. Mas enfim, criaram uma forma de flexibilizar a 8.666, criando o Regime Diferenciado de Contratações Públicas. É nele que consta o famigerado sigilo. O sigilo é sobre o valor orçado pela Administração para determinada obra. Esse valor não será o preço que a Administração vai efetivamente pagar pela obra.
Eu explico: para construir um estádio por exemplo, alguém precisa fazer o projeto, listar os serviços, e alguém - no caso eu - deve fazer as contas, com todos os detalhes, diretrizes e rigor inimagináveis impostos por órgãos de controle muito exigentes (e não estão errados) e declarar, com todas as rubricas do mundo, o valor global para execução do empreendimento: vai custar tanto. Esse valor serve como base para abrir uma concorrência e escolher uma construtora que levante o estádio. Atualmente, nos processos licitatórios (em que várias empresas disputam o contrato com a Administração Pública), esse número é divulgado quando do começo da concorrência. É o valor máximo que a Administração pretende pagar pelo serviço. O que acontece depois é que as empresas interessadas têm um tempo para elaborar e apresentar suas propostas. A que fizer por menos, leva. O sigilo seria em relação a este valor máximo que a Administração calculou, lembrando que todos os órgãos internos terão acesso ao orçamento realizado e como chegou-se ao montante.
A partir daí, da escolha da construtora, acabou o sigilo, qualquer cidadão terá acesso a quanto vai realmente custar a obra, aos cronogramas e acompanhar até a quantas anda a execução da dita. Contudo, quando as empresas já sabem quanto a Administração pretende pagar, podem (eu disse podem) organizar cartéis, ou podem alinhar seus custos ao que está sendo proposto, mas já prevendo aditivos no decorrer da obra e outras coisas ...
Agora que você já sabe o que eu sei, me ajuda a concluir o que leva a oposição a criar tanto alarde sobre uma informação como essa? O sigilo sobre o orçamento base é motivo pra essa algazarra? Não, né?
Bem, com toda essa gritaria, ou querem sabotar as obras mesmo e desgastar a presidenta, ou os grandes grupos fazem questão de saber os números antes da concorrência, como o costume, ou estão criando uma verdadeira cortina de fumaça sobre demais itens desse novo regime ... Ninguém questiona por exemplo uma coisa que nunca vi: se a construtora for bem, ela pode receber um tipo de abono ... a tal remuneração variável. Isso sim, merecia ser questionado.
Uma última teoria conspiratória seria atrapalhar tanto o processo, que os atrasos sejam inevitáveis e as obras transcorram a toque de caixa, a exemplo do Pan. E aí, mais uma vez, muita gente fica rica da noite pro dia.
*
Quer mais e melhor?
Consultor Jurídico
Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara
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Problema nenhum, ora bolas!
O problema não está no sigilo. O problema está na imprensa irresponsável, incompetente. O problema é a desinformação, o problema é a política!
Todo mundo deve ter ouvido em algum momento falar sobre o tal sigilo sobre os custos das obras para a Copa e os Jogos. Foi assim que você ouviu ou leu? Sigilo sobre os custos das obras?
Então, eu e você ouvimos bobagem. E fico estarrecida com o monte de besteiras que se veicula por aí: até no GNT ouvi umas mulheres desocupadas discutindo isso: "vamos ficar sem saber o que estão fazendo com o dinheiro público!" Mas como ando às voltas com a Lei de Licitações (e depois de agosto mais ainda ... rs), tenho uma coisa pra contar: o sigilo não é sobre os custos das obras.
O sigilo de que tanto falam, vem de uma tentativa de melhorar o que não funciona bem e engessa os processos licitatórios no Brasil: pra se ter uma idéia, se nenhuma empresa concorrente ficar entrando com recursos, uma concorrência pode gastar seis meses da história do mundo. Eu até poderia parar por aqui e começar a reclamar que isso de criar um novo Regime não é solução. Que solução é refazer a Lei, ou jogá-la fora e começar outra. Mas enfim, criaram uma forma de flexibilizar a 8.666, criando o Regime Diferenciado de Contratações Públicas. É nele que consta o famigerado sigilo. O sigilo é sobre o valor orçado pela Administração para determinada obra. Esse valor não será o preço que a Administração vai efetivamente pagar pela obra.
Eu explico: para construir um estádio por exemplo, alguém precisa fazer o projeto, listar os serviços, e alguém - no caso eu - deve fazer as contas, com todos os detalhes, diretrizes e rigor inimagináveis impostos por órgãos de controle muito exigentes (e não estão errados) e declarar, com todas as rubricas do mundo, o valor global para execução do empreendimento: vai custar tanto. Esse valor serve como base para abrir uma concorrência e escolher uma construtora que levante o estádio. Atualmente, nos processos licitatórios (em que várias empresas disputam o contrato com a Administração Pública), esse número é divulgado quando do começo da concorrência. É o valor máximo que a Administração pretende pagar pelo serviço. O que acontece depois é que as empresas interessadas têm um tempo para elaborar e apresentar suas propostas. A que fizer por menos, leva. O sigilo seria em relação a este valor máximo que a Administração calculou, lembrando que todos os órgãos internos terão acesso ao orçamento realizado e como chegou-se ao montante.
A partir daí, da escolha da construtora, acabou o sigilo, qualquer cidadão terá acesso a quanto vai realmente custar a obra, aos cronogramas e acompanhar até a quantas anda a execução da dita. Contudo, quando as empresas já sabem quanto a Administração pretende pagar, podem (eu disse podem) organizar cartéis, ou podem alinhar seus custos ao que está sendo proposto, mas já prevendo aditivos no decorrer da obra e outras coisas ...
Agora que você já sabe o que eu sei, me ajuda a concluir o que leva a oposição a criar tanto alarde sobre uma informação como essa? O sigilo sobre o orçamento base é motivo pra essa algazarra? Não, né?
Bem, com toda essa gritaria, ou querem sabotar as obras mesmo e desgastar a presidenta, ou os grandes grupos fazem questão de saber os números antes da concorrência, como o costume, ou estão criando uma verdadeira cortina de fumaça sobre demais itens desse novo regime ... Ninguém questiona por exemplo uma coisa que nunca vi: se a construtora for bem, ela pode receber um tipo de abono ... a tal remuneração variável. Isso sim, merecia ser questionado.
Uma última teoria conspiratória seria atrapalhar tanto o processo, que os atrasos sejam inevitáveis e as obras transcorram a toque de caixa, a exemplo do Pan. E aí, mais uma vez, muita gente fica rica da noite pro dia.
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Quer mais e melhor?
Consultor Jurídico
Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara
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segunda-feira, 20 de junho de 2011
O que você pode?
*
"Posso todas as coisas naquEle que me fortalece"
A gente vê essa frase por aí em todos os cantos. Adesivada nos carros, nas entradas das casas, nos tapetes das portas, na área de trabalho dos computadores dos crentes. Foi o primeiro versículo que meus pais nos fizeram decorar, no que meu irmão carinhosa ou ironicamente define como o adestramento cristão.
Desde pequena ouço pessoas apropriando-se desta frase de uma forma estranha. Eu sempre achei estranho. Leia por favor, essa frase aí em cima isolada do contexto. Ela diz que você pode TODAS as coisas. E eu ficava pensando: Deus me fortalece. Me torna forte. O que tem isso a ver com poder tudo?
Acho que a maioria dos crentes que usam essa frase pra crer que Deus está aí pra cumprir promessas, abrir portas de emprego, trazer o marido de volta, proporcionar a compra daquele carro zero ou daquela casa maior, nunca se interessaram em ler o que o autor dessa frase realmente quis dizer com a expressão "todas as coisas". Se não, vejamos:
Na carta de Paulo aos filipenses, ele diz (de acordo com a tradução da linguagem de hoje, afinal, isso é só um blog): " ... Não estou dizendo isso por me sentir abandonado, pois aprendi a estar satisfeito com o que tenho. Sei o que é estar necessitado e sei também o que é ter mais do que é preciso. Aprendi o segredo de me sentir contente em todo lugar e em qualquer situação, quer esteja alimentado ou com fome, quer tenha muito ou tenha pouco." (Filipenses 4:11-13)
Isso foi escrito antes da famosa frase. Depois que ele afirma ter aprendido (e eu não vou nem entrar no mérito da questão: o que deve ter custado a Paulo este aprendizado? Quantas chicotadas? Quantas prisões, quantas humilhações?) estar alegre de qualquer maneira, aí sim, arremata: "posso todas as coisas, naquEle que me fortalece." Deus o fortalecia tanto nos momentos ruins, quanto nos bons. Nem se desesperava, tampouco se engrandecia. Deus o fortalecia. E hoje, o que ouvimos nas igrejas é que podemos tudo, qualquer coisa, naquele que nos honra, nos exalta, nos entrega a vitória nas mãos, nos traz as bençãos terrenas, nos glorifica diante dos homens? O que está escrito na minha bíblia é que Ele me fortalece. Me faz passar pelas piores e melhores situações com dignidade e confiança. Por que ser cristão não é poder tudo, é ter um Deus que me fortalece em tudo que me sobrevir, para seu próprio serviço, para sua própria Glória.
Antes que alguém diga que nosso Deus pode nos abençoar sim, senhora, digo que acredito plenamente nisso. Mas isso depende da Sua vontade, e além disso, não deve ser essa a nossa principal motivação.
Cristo veio para servir. Por que um seguidor dEle deve existir nesta terra preocupado consigo mesmo e com este nível de existência?
Enfim, esse negócio de se dizer cristão é bem maior do que se ouve por aí atualmente.
Para não estender-me mais, eis um interessante paralelo entre o aprendizado de Paulo e uma oração do sábio Salomão, registrada em seu livro de Provérbios:
"Posso todas as coisas naquEle que me fortalece"
A gente vê essa frase por aí em todos os cantos. Adesivada nos carros, nas entradas das casas, nos tapetes das portas, na área de trabalho dos computadores dos crentes. Foi o primeiro versículo que meus pais nos fizeram decorar, no que meu irmão carinhosa ou ironicamente define como o adestramento cristão.
Desde pequena ouço pessoas apropriando-se desta frase de uma forma estranha. Eu sempre achei estranho. Leia por favor, essa frase aí em cima isolada do contexto. Ela diz que você pode TODAS as coisas. E eu ficava pensando: Deus me fortalece. Me torna forte. O que tem isso a ver com poder tudo?
Acho que a maioria dos crentes que usam essa frase pra crer que Deus está aí pra cumprir promessas, abrir portas de emprego, trazer o marido de volta, proporcionar a compra daquele carro zero ou daquela casa maior, nunca se interessaram em ler o que o autor dessa frase realmente quis dizer com a expressão "todas as coisas". Se não, vejamos:
Na carta de Paulo aos filipenses, ele diz (de acordo com a tradução da linguagem de hoje, afinal, isso é só um blog): " ... Não estou dizendo isso por me sentir abandonado, pois aprendi a estar satisfeito com o que tenho. Sei o que é estar necessitado e sei também o que é ter mais do que é preciso. Aprendi o segredo de me sentir contente em todo lugar e em qualquer situação, quer esteja alimentado ou com fome, quer tenha muito ou tenha pouco." (Filipenses 4:11-13)
Isso foi escrito antes da famosa frase. Depois que ele afirma ter aprendido (e eu não vou nem entrar no mérito da questão: o que deve ter custado a Paulo este aprendizado? Quantas chicotadas? Quantas prisões, quantas humilhações?) estar alegre de qualquer maneira, aí sim, arremata: "posso todas as coisas, naquEle que me fortalece." Deus o fortalecia tanto nos momentos ruins, quanto nos bons. Nem se desesperava, tampouco se engrandecia. Deus o fortalecia. E hoje, o que ouvimos nas igrejas é que podemos tudo, qualquer coisa, naquele que nos honra, nos exalta, nos entrega a vitória nas mãos, nos traz as bençãos terrenas, nos glorifica diante dos homens? O que está escrito na minha bíblia é que Ele me fortalece. Me faz passar pelas piores e melhores situações com dignidade e confiança. Por que ser cristão não é poder tudo, é ter um Deus que me fortalece em tudo que me sobrevir, para seu próprio serviço, para sua própria Glória.
Antes que alguém diga que nosso Deus pode nos abençoar sim, senhora, digo que acredito plenamente nisso. Mas isso depende da Sua vontade, e além disso, não deve ser essa a nossa principal motivação.
Cristo veio para servir. Por que um seguidor dEle deve existir nesta terra preocupado consigo mesmo e com este nível de existência?
Enfim, esse negócio de se dizer cristão é bem maior do que se ouve por aí atualmente.
Para não estender-me mais, eis um interessante paralelo entre o aprendizado de Paulo e uma oração do sábio Salomão, registrada em seu livro de Provérbios:
"Duas coisas te peço;
não mas negues, antes que eu morra:
afasta de mim a vaidade e a mentira;
não me dês nem a pobreza nem a riqueza;
dá-me o pão que me for necessário;
para não suceder que, estando eu farto,
te negue e diga: Quem é o SENHOR?
Ou que, empobrecido, venha a furtar
e profane o nome de Deus."
(Livro dos Provérbios de Salomão, capítulo 30, versos 7, 8 e 9)
*
sexta-feira, 10 de junho de 2011
O problema eterno das mulheres
*
As mulheres são dependentes. Ponto final.
Muito se fez para tentar mudar essa sentença, mas sou bem pessimista quanto a isso: as mulheres são dependentes por que sempre foram.
Eu poderia começar tentando explicar as teorias de Jung sobre o inconsciente coletivo, tão vastas e fascinantes, que nem me atreverei. Além disso, Mr. Google tem me rachado a cara de vergonha, trazendo a este humilde blog estudantes de Universidades Federais ávidos por material acadêmico. E quem sou eu pra falar de psicologia com propriedade? Então, vou só mencionar.
Voltando ao tema, Jung e seus arquétipos dão conta de explicar alguma coisa sobre a dependência feminina. O Inconsciente Coletivo de Jung diz respeito a um material inato de todo ser humano, e comum à humanidade que perpetua o aprendizado da espécie ao longo de sua história. Ok, não é só isso. Está muito longe de ser só isso, mas para o que quero dizer, acho que basta. Quem quiser saber mais, Clique aqui e divirta-se! . Todo esse conteúdo advindo de outras vivências humanas, não está no nível consciente de cada um. Pelo contrário, ele é o nível mais inconsciente do ser, nele repousa o inconsciente pessoal, que é tudo aquilo que o sujeito reprime. Portanto, as forças reprimidas no inconsciente pessoal também sofrem ação de um inconsciente ainda mais profundo e comum a todas as pessoas. Difícil de entender? A grosso modo: idéias, conceitos, aprendizados de sobrevivência, evoluções cognitivas, paradigmas, tudo que vai se transformando ao longo de milênios foi passado gerações após gerações de alguma forma até chegar a nós, certo? Jung explicou assim (bem mais que assim) ... rs.
Se formos para o lado de Schopenhauer e seu "Metafísica do Amor" (que eu conheci graças a um homem genial rsrs), ele dizia que a mulher, ao contrário do homem, traz consigo a necessidade de manter seu par sempre a seu lado, para sobrevivência própria e de sua prole. Os evolucionistas concordam com isso, e realmente parece fazer todo sentido.
Apesar de toda revolução sexual e toda liberalidade vivenciada nos dias atuais, se acessarmos qualquer site feminino, ou folhearmos uma revista voltada para o gênero, lá encontraremos coisas do tipo: "como satisfazer seu homem na cama", "dicas para emagrecer mais rápido" (e encaixar-se no perfil da mulher desejável), "dez passos para salvar seu relacionamento", enfim ... tudo que agrade ao macho, tudo que o mantenha ao lado da mulher, tudo girando em torno dele. E que não me venham dizer que isso é um movimento midiático de alienação das mulheres, por que afinal, revista vende o que a gente quer ler. As mais bem resolvidas feministas não se podem esquivar desse famigerado inconsciente coletivo: as mulheres querem um homem para chamar de seu. E esta necessidade parece tão primária, arcaica, básica, que a impressão que tenho é que trata-se de uma energia mais forte que todas as outras que movem uma mulher.
Dia desses assisti a uma entrevista com uma pesquisadora que estudou sobre a evolução sexual da mulher no Brasil e fiquei estarrecida com as conclusões a que chegou: a mulher brasileira sofre influência da cultura norte-americana, como todo o resto da sociedade nesse país. Ela vai para o mercado de trabalho, amplia seu nível cultural, encurta a saia, ela dorme com quem quiser, mas por fim, ela casa, ela tem filhos e cuida de seu homem e de seus filhos como sua bisavó cuidava: os homens não ajudam nos trabalhos domésticos, os homens têm tudo na mão, o marido comanda o lar, toma as decisões. A mulher decide fora de casa. Mas dentro de casa, ela segue desejando ser protegida. É claro que há exceções, mas estou falando da maioria.
Por fim, penso que idéias como tais não se mudam em trinta anos, nem num século. Claro que é inegável o progresso da mulher enquanto pessoa se olharmos um pouco para trás na História. Mas será que esse avanço está interiorizado na fêmea? Ou o arquétipo do sexo frágil, dependente, fala mais alto? Ou o fato de ter um homem dentro de casa, seja ele como for, assegura-lhe alento em seu instinto primitivo de sobrevivência? Ou será ainda que socialmente uma mulher acompanhada tem mais valor do que uma mulher que aprendeu que ninguém precisa fazer por ela o que pode fazer sozinha?
Mas que fique claro: esse texto foi escrito por uma mulher das cavernas, do tipo que quer mais é ser puxada pelo cabelo. :D
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As mulheres são dependentes. Ponto final.
Muito se fez para tentar mudar essa sentença, mas sou bem pessimista quanto a isso: as mulheres são dependentes por que sempre foram.
Eu poderia começar tentando explicar as teorias de Jung sobre o inconsciente coletivo, tão vastas e fascinantes, que nem me atreverei. Além disso, Mr. Google tem me rachado a cara de vergonha, trazendo a este humilde blog estudantes de Universidades Federais ávidos por material acadêmico. E quem sou eu pra falar de psicologia com propriedade? Então, vou só mencionar.
Voltando ao tema, Jung e seus arquétipos dão conta de explicar alguma coisa sobre a dependência feminina. O Inconsciente Coletivo de Jung diz respeito a um material inato de todo ser humano, e comum à humanidade que perpetua o aprendizado da espécie ao longo de sua história. Ok, não é só isso. Está muito longe de ser só isso, mas para o que quero dizer, acho que basta. Quem quiser saber mais, Clique aqui e divirta-se! . Todo esse conteúdo advindo de outras vivências humanas, não está no nível consciente de cada um. Pelo contrário, ele é o nível mais inconsciente do ser, nele repousa o inconsciente pessoal, que é tudo aquilo que o sujeito reprime. Portanto, as forças reprimidas no inconsciente pessoal também sofrem ação de um inconsciente ainda mais profundo e comum a todas as pessoas. Difícil de entender? A grosso modo: idéias, conceitos, aprendizados de sobrevivência, evoluções cognitivas, paradigmas, tudo que vai se transformando ao longo de milênios foi passado gerações após gerações de alguma forma até chegar a nós, certo? Jung explicou assim (bem mais que assim) ... rs.
Se formos para o lado de Schopenhauer e seu "Metafísica do Amor" (que eu conheci graças a um homem genial rsrs), ele dizia que a mulher, ao contrário do homem, traz consigo a necessidade de manter seu par sempre a seu lado, para sobrevivência própria e de sua prole. Os evolucionistas concordam com isso, e realmente parece fazer todo sentido.
Apesar de toda revolução sexual e toda liberalidade vivenciada nos dias atuais, se acessarmos qualquer site feminino, ou folhearmos uma revista voltada para o gênero, lá encontraremos coisas do tipo: "como satisfazer seu homem na cama", "dicas para emagrecer mais rápido" (e encaixar-se no perfil da mulher desejável), "dez passos para salvar seu relacionamento", enfim ... tudo que agrade ao macho, tudo que o mantenha ao lado da mulher, tudo girando em torno dele. E que não me venham dizer que isso é um movimento midiático de alienação das mulheres, por que afinal, revista vende o que a gente quer ler. As mais bem resolvidas feministas não se podem esquivar desse famigerado inconsciente coletivo: as mulheres querem um homem para chamar de seu. E esta necessidade parece tão primária, arcaica, básica, que a impressão que tenho é que trata-se de uma energia mais forte que todas as outras que movem uma mulher.
Dia desses assisti a uma entrevista com uma pesquisadora que estudou sobre a evolução sexual da mulher no Brasil e fiquei estarrecida com as conclusões a que chegou: a mulher brasileira sofre influência da cultura norte-americana, como todo o resto da sociedade nesse país. Ela vai para o mercado de trabalho, amplia seu nível cultural, encurta a saia, ela dorme com quem quiser, mas por fim, ela casa, ela tem filhos e cuida de seu homem e de seus filhos como sua bisavó cuidava: os homens não ajudam nos trabalhos domésticos, os homens têm tudo na mão, o marido comanda o lar, toma as decisões. A mulher decide fora de casa. Mas dentro de casa, ela segue desejando ser protegida. É claro que há exceções, mas estou falando da maioria.
Por fim, penso que idéias como tais não se mudam em trinta anos, nem num século. Claro que é inegável o progresso da mulher enquanto pessoa se olharmos um pouco para trás na História. Mas será que esse avanço está interiorizado na fêmea? Ou o arquétipo do sexo frágil, dependente, fala mais alto? Ou o fato de ter um homem dentro de casa, seja ele como for, assegura-lhe alento em seu instinto primitivo de sobrevivência? Ou será ainda que socialmente uma mulher acompanhada tem mais valor do que uma mulher que aprendeu que ninguém precisa fazer por ela o que pode fazer sozinha?
Mas que fique claro: esse texto foi escrito por uma mulher das cavernas, do tipo que quer mais é ser puxada pelo cabelo. :D
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quinta-feira, 9 de junho de 2011
Conversa de Aeroporto: New Generation
*
Sentada na praça de alimentação do Terminal de Passageiros, preparando-me para dar a primeira garfada no prato à minha frente, aproxima-se uma menina linda, de uns oito anos, sorrindo:
- Oi?
Suspendo a garfada para retribuir o sorriso:
- Oi, menina linda!
- Qual seu nome?
Respondo e pergunto o dela. É Clara. Que nome lindo!
Na mesa ao lado, a mãe observa o "approuch" de Clara, que trata logo de sentar-se na cadeira à minha frente disposta a inciar um bate-papo. Eu aceno para a mãe na intenção de sinalizar que não vou torturar nem sequestrar a criança.
- Eu moro lá em Fortaleza, e você? - ela começa, animada.
- Eu moro aqui mesmo, perto do Aeroporto.
- No Rio de Janeiro?
Quando eu ia responder que sim, Clara leva as mãos aos ouvidos e reclama:
- Tá muito barulho aqui!
Era um grupo de baderneiros de um timinho de segunda do futebol carioca, em comemoração, a consumir álcool e batucar nas mesas próximas.
- Sabia que eu sei falar francês?
- Que menina esperta você é!
- Eu estou indo para a França daqui a pouco.
- O que você vai fazer lá?
- Falar francês.
Não contive o riso nessa hora. Clara parecia gente grande, a puxar um assunto atrás do outro.
- Já comprou o presente do seu namorado? - ela perguntou a certa altura.
- Esse ano estou livre, não tenho namorado. E você, Clara?
- Eu não.
Suspirou, refletiu e emendou:
- Quando eu crescer vou viajar pelo mundo todo.
- É mesmo? Vai pra onde?
- Pra França.
- E onde mais?
- E vou pra Suíca, e pros Estados Unidos... E eu também vou ser médica. E vou conhecer toooooodas as cidades do mundo.
- Mas e o príncipe encantado nessa história? Vai deixar ele no Brasil?
- Não, "ué". O príncipe vai casar com a princesa! - respondeu impaciente.
- Mas você não é uma princesa? Tem que ter um príncipe.
- Princesa não. Eu sou a Clara.
*
Boa viagem, Clara!
*
Sentada na praça de alimentação do Terminal de Passageiros, preparando-me para dar a primeira garfada no prato à minha frente, aproxima-se uma menina linda, de uns oito anos, sorrindo:
- Oi?
Suspendo a garfada para retribuir o sorriso:
- Oi, menina linda!
- Qual seu nome?
Respondo e pergunto o dela. É Clara. Que nome lindo!
Na mesa ao lado, a mãe observa o "approuch" de Clara, que trata logo de sentar-se na cadeira à minha frente disposta a inciar um bate-papo. Eu aceno para a mãe na intenção de sinalizar que não vou torturar nem sequestrar a criança.
- Eu moro lá em Fortaleza, e você? - ela começa, animada.
- Eu moro aqui mesmo, perto do Aeroporto.
- No Rio de Janeiro?
Quando eu ia responder que sim, Clara leva as mãos aos ouvidos e reclama:
- Tá muito barulho aqui!
Era um grupo de baderneiros de um timinho de segunda do futebol carioca, em comemoração, a consumir álcool e batucar nas mesas próximas.
- Sabia que eu sei falar francês?
- Que menina esperta você é!
- Eu estou indo para a França daqui a pouco.
- O que você vai fazer lá?
- Falar francês.
Não contive o riso nessa hora. Clara parecia gente grande, a puxar um assunto atrás do outro.
- Já comprou o presente do seu namorado? - ela perguntou a certa altura.
- Esse ano estou livre, não tenho namorado. E você, Clara?
- Eu não.
Suspirou, refletiu e emendou:
- Quando eu crescer vou viajar pelo mundo todo.
- É mesmo? Vai pra onde?
- Pra França.
- E onde mais?
- E vou pra Suíca, e pros Estados Unidos... E eu também vou ser médica. E vou conhecer toooooodas as cidades do mundo.
- Mas e o príncipe encantado nessa história? Vai deixar ele no Brasil?
- Não, "ué". O príncipe vai casar com a princesa! - respondeu impaciente.
- Mas você não é uma princesa? Tem que ter um príncipe.
- Princesa não. Eu sou a Clara.
*
Boa viagem, Clara!
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